quarta-feira, 19 de setembro de 2007

(89) ESTADOS D'ALMA



Aquando lidei com os sábios foi-me dado o prazer do convívio duma artista plástica, Lídia de seu nome.
Era uma combatente, resistente, força da natureza.
Com forte traço e cores, escrevia na tela histórias d'encanto..
Acompanhei a obra, vivi a ascensão e o clima de mudança, (evolução ou involução ?) tão próprio da alma de artista na avidez de atingir o cume, o inatingível.
Usando da mesma robustez do traço e da luz das suas cores, saltou do detalhe do retrato e da paisagem aos estados de alma cuja expressão na tela propiciam profundo mergulho no espírito de cada observador sensível.
E assim continuou o ciclone de elogios à sua obra.
Ausentei-me algum tempo, e não preciso quanto, por não saber medir.
Foi estranho o reencontro.
No seu cantinho recebeu-me triste e abatida, sentada à frente duma tela que não resisti a mostrar acima.
--E disse:
Quero a tua opinião.
E os seus lindos olhos, de normal serenos, prenunciavam tempestades.
Não faltei à verdade, a minha claro, e respondi:
-- Meu amor, mesmo que esta tela te proporcione orgasmos múltiplos, a mim, podes crer, não causa sequer a previsão duma ligeira erecção.
E à cautela acrescentei:
--Nota que esta opinião pode resultar da minha idade e não da qualidade da obra.
Um raio de luz dispersou aquele céu tempestuoso dos seus olhos e sorriu.
-- Foi a minha ultima obra, pura experiência. Assinei. Não calculas o êxito. Para mim basta, Estou cansada.
E continuou
-- Vou dar lugar à derradeira. Será de técnica mista, um esfregaço de excremento que espatulo sobre a tela, deixo secar e aplico um spray prateado. Proponho irmos incógnitos à abertura e escutarmos as interpretações eruditas de alguns.
E deu o grito
-- Só tu e eu saberemos que não passa de trampa.
A amargura de não se rever nas projecções dos outros.
Serenei-a com terno e longo abraço de silencio.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

(88) A ESCALADA

Para conhecer do sentido da vida, havia-me proposto chegar ao topo.
Estou cá em cima. As expectativas foram iludidas.
Sobre a cabeça a ilusão do azul celeste e farrapos brancos esvoaçando esbaforidos ao gélido bafo do vento.
Nem folha nem fumo.
Nem árvore, nem ave, nem o seu pio.
Afinal aquele sentido havia de ter sido retirado do desafio da escalada e durante a sua superação.
Entre a pregagem das estacas devia ter dado um compasso de espera, olhando em volta, imaginado até as árvores, as aves e os seus gorjeios e talvez até flores.
Na ânsia da descoberta esqueci o sonho, abafei-o, e resta apenas o desespero de não ter caído eu, quando perdi quem me seguia.
Ali, no topo, nada mais resta.
Vou espetar a bandeira da angustia, infeliz marco da minha presença neste lugar insólito e iniciar a facilitada descida, onde encontrarei o sentido do nada.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

(87) A PARCA


Dizem os na matéria entendidos que a Parca quando ceifa, como gratificação e antes da passagem na porta grande e última, a do sem regresso, projecta em versão acelerada a fita da nossa vida.
Não crendo, e também não sendo dono da verdade, dou à duvida o beneficio e vou cismando que de pouco me serviria rever o filme da minha vida.

Os erros, muitos decerto, voltariam a ser cometidos, se a ocasião me fosse dada e deles consciência não tivesse.

As alegrias rejeito, evitando dessa forma rever os sofrimentos.

Alegrias e sofrimentos que a cruel e generosa natureza, a seu tempo, cuidará de fazer esquecer ou então ir adoçando.

Não !

E até porque de cinema ando arredio, cuidarei de, subrepticiamente, tentar enganar a ceifeira, embarcando logo logo na definitiva soneca, com dispensa do espectáculo.

Com tantos afazeres dispersos, talvez ela não dê conta.

domingo, 12 de agosto de 2007

(86) A VISITA

Desta minha visita ao mar não colhi o sabor de outros anos.
Lembra-me o entusiasmo sadio de então, da minha entrega total nos seus braços de espuma sem notar sequer a temperatura do abraço.
Brincávamos como dois cachorros e eu saía exausto, vencido, não convencido. Repousava na areia o corpo molhado e logo que o sol me mordiscava, lá estávamos de novo repetindo o ciclo.
Alguma coisa quebrou.

Ele estendeu os seus braços de espuma pela areia, acariciou-me os pés, num vaivém ritmado, sem a fingida violência doutrora.
Pareceu-me o mesmo, talvez menos azul.
Faltava porventura algo que não consigo definir.
Talvez, como todos os seres, tenhamos perdido fulgor.
Não deixei de o procurar todos os dias nem sequer deixei de o amar.
O meu telefone de certo modo compensou-me.
Fui agraciado com a “ordem de 15 dias sem tocar”.
E notem, não o desliguei. Brilhante.
Fiquei tão entusiasmado que prometo portar-me bem, na esperança de ser agraciado com a “ordem de 365 dias”.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

(85) O MALEFICIO DO ESPELHO

Tenho, entre outros, o vicio menor de beber água em directo da torneira e então, se acordo de noite, é satisfação obrigatoriamente a garantir.
Esta noite, seriam duas, ensonado, lá fui matar o vicio e, quando saciado, levantei a cabeça. Um sujeito, vagamente familiar, fitava-me, olhos sem brilho, profusos de tristeza e ávidos de vazar a alma.
Não me dispus a conversas, olhei-o, sorri e virei as costas de retorno à cama.
À cautela, e contra o meu uso, fechei a porta.
Sem sucesso tentei pegar de novo o fio do sono. Ao novelo juntaram-se o Remorso e o Egoísmo e não deixavam fluir.
Ora o Egoísmo e o Remorso são causa e efeito e, sabendo que não me deixariam em paz, resolvi voltar ao quarto de banho à procura do sujeito que até retribuíra com tristeza o meu sorriso evasivo.
Desaparecera.
Corri em desespero aos outros espelhos da casa e êxito não colhi.
Então o grito saiu:
– Está alguém em casa ?
Soou a vazio e o falsete do eco reboou lúgubre...asa ...asa ...asa .....
Estava definitivamente só !
Voltei à cama amargurado e nem o sono reencontrei.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

(84) TUDO AO MOLHO


Por questão disciplinar e pessoal, devo explicação pela arrumação dos meus textos.
A solidão, loucura e preconceitos passeavam em cantos separados e a dificuldade de arrumo surgia evidente a cada texto, por não ser tarefa de somenos atribuir tema ao mesmo.
Por vezes, na solidão esboçado, descambava em coisa louca, sempre acabando a beber das fontes do preconceito, onde as águas serão felinas ou no menos muito turvas.
Assim me ia perdendo no trilho e na parcela de gozo a extrair com licitude destas coisas, algumas com algum sentido, outras com nenhum ou porventura com muito. Como vamos saber ?
Resolvi por tal unificar e, para sair da encruzilhada, migrei.
Sendo agora a confusão semelhante, a via é única e será o próprio texto ou quem o ler a topar o seu ninho.
Não havendo tarefa sem ossos, obviamente eles surgiram.
Algumas imagens perderam animação e a consequente graça e os comentários que muito prezo tiveram de ser passados em bloco por cada texto, embora conseguisse manter os emissores e as datas.
Tudo isto crueza e fruta verde da árvore do meu incipiente conhecimento destas andanças.
Enfim... a coisa ficou dormida e, de vez em vez, lá me regalo, com maior eficácia, a reler o anterior paleio, estranhando alguns estados de alma de então, como se de meus escritos se não tratasse.
Para terminar e reiterando a vantagem, lá estaria eu agora â procura de poiso para este texto.
Resulta ele da minha boa solidão, do meu felino preconceito ou quem sabe da minha mansa loucura ?

(83) LAÇOS E... NÓS

Sempre gostei de laços, de laçada simples ou seus companheiros, mais firmes, mais duradouros, os nós.
O laço é deveras abrangente, ele enlaça o presente, no requinte da fita colorida e aperta, ajusta ao pé, o sapato mais humilde.
Esta laçada no sapato, e segundo a qualidade do atacador, terá de ser dupla, para evitar o constante reajuste.
Da gravata não sei. Não uso e evito baptizados, casamentos, funerais e quejandos que obriguem ao ritual de apertar o pescoço.
Os nós são de famílias mais nobres e na realidade outra loiça, pese embora mais complicados no enlace.
Entre os humanos também se criam laços, são invisíveis e muito semelhantes aos nós pela necessidade de preliminares. A laçada simples, descuidada, raro dá flor.
Tem de haver especial cuidado no aperto, nem muito, nem pouco, pois o problema principal está na quase impossibilidade de reajuste.
Há casos em que esse laço, ficando lasso, raro volta a enlaçar.
E com poucos, muito poucos, se consegue dar o verdadeiro nó, mais duradouro, por vezes eterno.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

(82) TERCEIRO ANDAR

Assisti a uma interessante palestra sobre saúde mental.
Após a abordagem e explanação de absorventes fases do tema, a técnica, questionada sobre hipnose, aligeirou a questão e, fazendo humor, definiu-a como:

"distrai-te lá, eu quero que faças aquilo que não queres fazer"

Esta irónica e subversiva graça, porventura não o sendo, deu-me a compreender e aceitar grande parte dos meus conterrâneos.
O democrata no poder é sincero, grita nos comícios que em democracia
"todos dizem o que querem e fazem como ele quer".
Os assistentes aplaudem, não o ouvem. estão hipnotizados.
E depois há tantos contemporâneos meus de bizarras condutas, bizarras certamente por insólitas e contrárias às minhas.
Suponho façam aquilo que não querem. Estarão hipnotizados ?
Ou estarei eu hipnotizado e afinal o resultado dá no mesmo ?
Existem outras hipóteses.
Pode ser que andemos todos hipnotizados e assim mesmo a fazer o que queremos. Quem sabe ?
E ainda pode suceder não resulte o problema tão linear, entre branco e preto, talvez nos passeemos no cinza.
Aqui a meta será sempre a mesma, em contornos menos precisos, quiçá mais angustiantes, pela sua indefinição.

Ora... Não liguem ao texto
Neste mundo de loucura, devo ser um dos mais loucos.
Seja lá isso o que seja !



sexta-feira, 22 de junho de 2007

(81) OS RITUAIS

Sendo os transportes públicos duplamente poluentes, reconheço-lhes vantagens e não os dispenso.
Quando chego a esta cidade, a minha natal, o que venho fazendo cada vez a mais espaços, poupo-me à condução, que usualmente faço a gosto, evitando-me ficar sujeito à impossibilidade de terceiros a reconhecer não andarem sós na terra e também à possibilidade de ouvir alguns eventuais e gratuitos insultos.
Acresço-lhe ainda a vantagem notória de, por momentos e naquele bulício citadino, criar um casulo de isolamento ou posto de observação de condutas insólitas de que felizmente o humano é pródigo.
Conduta por vezes curiosa, por bizarra.
Foi assim que numa destas pequenas viagens, alguém se deslocava abengalado e coxeando, atravessando aquele mar de humanidade.
Um outro sujeito que evidentemente o conhecia, alargou um daqueles sorrisos de publicidade às cáries e ao tabaco e exclamou:
— Eh pá, há que tempos não te via, como passaste ?
Após aquela sinistra aventura de difícil progressão, a resposta era óbvia:
— Com dificuldade !
E logo, sem atenção à resposta, brotou a pergunta seguinte:
— Então e a saúde ?
Nova resposta, aliás evidente pela aparência destroçada:
— Mal, muito mal.

Moral da história:

As respostas não correspondiam ao manual dos rituais.
O respondente deveria ter afivelado também o melhor dos seus esgares e dado a resposta adequada, falsa que fosse, pois ninguém liga a ninguém.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

(80) A CRENÇA


Com frequência me colocam a questão: És crente ?
Em regra a pergunta encobre o “acreditas em Deus?” “tens fé ?” entre outros, como parâmetros inseparáveis da crença, colocando nesta o envoltório do endeusamento. Como se a crença e a fé fossem fossem exclusivo duma qualquer especifica divindade, entre tantas que por aí pululam com mais ou menos seguidores, dependendo apenas da época, situação geográfica e estado psicológico.
Todas seguindo sinuoso trilho, apartando o bem do mal, talvez omitindo que nesta harmonia natural nada se perde, tudo se transforma, pelo que o aparente bem, não deixará de ser para outro o aparente mal.
E, claro, qualquer das divindades envolvidas é espelho do bem e do amor e assim são veneradas, mesmo que porventura administrem o “bem” com crueldade, que atribuirão à conduta do sofredor que assim se redimirá ou melhor ainda atribuindo o mal a outra terrível, maléfica e diabólica entidade, esta por si só garante da existência do bom Deus.
Que estranho ! Poupem-me. Mas respondo à pergunta:
Na caminhada da vida, apesar da pressa, olho à volta e humildemente extasio na observação da energia envolvente e nos acordes melodiosos da sua sinfonia
Olho o frondoso pinheiro e acredito ter brotado dum singelo pinhão
Olho os astros e acredito na disciplina da sua rota.
Olho as nuvens e acredito no vento que as empurra
Olho as águas e acredito na sua força criadora
Olho o por do sol e acredito que anda por ali paleta mágica
Olho a chuva, a trovoada, a tempestade e acredito na sua força.
Olho as fauces ensanguentadas do leão quando as mergulha no ventre da gazela, e acredito na ausência da crueldade, antes exigência do processo.
Olho o espermatozóide e o óvulo, de tão frágil aparência, e acredito no poderoso ser que conseguem gerar, por vezes máquina destruidora, provando assim que até na natureza “errar é natural”.
Olho para mim, reconhecendo o insignificante grão de poeira na mó da vida, e acredito nesses magníficos poderes que temporariamente me foram atribuídos
Depois de tanto observar acham que era possível não ser crente?
No fundo acredito no amor e na vida, na força e equilíbrio da natureza, no bem e no mal, passageiros clandestinos que tanto se transmudam.

Não perco porventura o sentido critico e comigo sou duro.
Sou o meu deus. Tenho um templo e ali medito. Acabo por ser rico.

domingo, 3 de junho de 2007

(79) AS FERAS







Como o velho índio, reconheço a presença das duas feras que em mim coabitam (a do bem e a do mal) e, porventura como ele, sei subsistirá aquela a quem dê o alimento..
Consultada a minha consciência e atribuindo ao conceito os valores que habitualmente prossigo e persigo, obviamente alimento a da função generosa do bem, no menos como eu o entendo e até aceito e concordo possa não ser exactamente a crença dos meus conterrâneos.
E isto sem grilhetas que há muito deixei de usar.
Contudo, sentia-me por vezes tentado a pequenas travessuras que não eram de todo meu estilo, o que me levava a crer que a debilidade da tal fera não seria tão notória.
Na presença do problema, eminente se tornava a mesa redonda, ou quadrada que fosse, e a resolução da anomalia.
Vim a saber, vejam lá, que a tal de fera boa, na sua extrema complacência, partilhava a refeição com a vizinha maldosa.
Foi o argumento justificativo da acção fácil de validar..
Segundo elas, havia necessidade imperiosa de manter os níveis de sobrevivência, débeis fossem, Só a presença duma era garante da existência da outra.
Doutro modo, como saberia eu estar a praticar o bem, sendo essa a única moda em uso?
Não sou de questionar lógica tão convincente. Medito e aceito.
Não deixarei todavia de ficar de olho, não se dê a fera do mal a artes tais que arrebate toda a refeição da incauta opositora

(78) TURISMO

Se resolveu viajar ao País da Saudade
Evite o desvio à Cidade dos Remorsos
Se não aceitar o aviso
Evite no menos as ruelas da Culpa

quinta-feira, 17 de maio de 2007

(77) a DEUS

Minha atenção foi chamada por piar aflitivo.
No terraço, em revoada, volteavam os pardais.
Falavam todos à uma e a causa era patente.
Por gato preto ou pardo, um deles fora destroçado, restando a cabeça com dois olhos sem expressão.
Um, que pelo susto passara e tremia de emoção, pipilava a sua história:
--Estávamos na brincadeira, na hipótese de namoro, e o malvado do gatão, duma só sapatada, apanhou-o mesmo em voo.
E todos pranteavam em chilreado alarido, até que um deles questionou:
--- Será que Deus existe ?
A insólita pergunta fez tombar a assembleia em reflexão profunda.
Caiu ali o remanso, por quanto tempo não sei e de nada serviria que as bitolas são diferentes.
A pergunta embaraçosa sai resposta duvidosa e foi aí que dei graças por no paleio não ter entrado.
Decorrido o embaraço, lá rompeu outro piupiu:
-- Ora, se existisse, onde estava ele quando o gato aqui passou ?
Então,retrucou o mais velho em tom pausado, era doutra geração e muito havia voado:
-- Não existe podem crer ! E até ouvi dizer que é invenção dos humanos para tão sós não se sentirem.
Enfim, não quiz ouvir mais destas coisas de pardais, pois naquela madrugada, ainda o orvalho chorava, outra conversa escutara dum grupinho de lagartas. E o mote semelhante com queixas da passarada-
Tudo à volta do umbigo e da área circundante, sempre à espera do milagre, esquecem o perigo e a morte, seu companheiro e mandante.
Mas ainda faço mais, deixo aqui o retrato destes três personagens, tão diferentes, tão iguais.


E aprendi o conceito:

Inventado por nós para não nos sentirmos sós !
Gostei...
Uma luz assim acesa, com quem pudesse falar, afastaria a tristeza duma noite sem luar...

domingo, 22 de abril de 2007

(76) O ADEUS

Fui cativado, como a raposa, e à lembrança me tem vindo a florinha amarela.
Hoje mesmo fui ao sitio, mais o aperto que a ideia fatalista e o presságio me emprestavam.
A confirmação logo tive. O seu sitio abandonado.
Alguém a colheu, ou pisou, e, nesta última hipótese, o vento que a trouxe a levou.
Tenho menos! Mas algo dela me ficou e, nos picos do silencio, chamo-a ao meu coração e não ficarei tão só.

domingo, 15 de abril de 2007

(75) A FLOR E O SOL


—Obrigada !
Olhei à volta. Ninguém.
Óptimo, pensei. Agora já não falo sozinho, ouço vozes.
E logo anotei a vantagem de abandonar o monólogo.
O obrigada repetiu-se, e, dessa vez, guiado pelo som, descortinei uma florinha amarela, repousando em berço verde nas fissuras da calçada.
— Obrigada porquê ?
— Não me pisaste. Sabes, sou filha bastarda duma lufada de vento.
As minhas irmãs tem sido pisadas ou colhidas e assim fiquei só.
— Não gosto de colher nem de pisar flores.
— Como tu há poucos, por isso vivo nesse medo. Os homens são muito estranhos, mostram-se atarefados, atropelam tudo e seguem sem mostrar compaixão, correndo dum lado para outro.
Será que sabem o caminho ?
— Suponho que não.
— Certa vez passou por aqui um sábio que me disse que os homens são contraditórios:
Perdem a saúde para juntar dinheiro e depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde
Pensam ansiosamente no futuro, esquecendo o presente e acabam por não aproveitar nem o presente nem o futuro
Vivem como se nunca morressem e morrem como se nunca tivessem vivido
É tão estranho !
— Podes crer. Acham também que praticando os rituais aliviam a sua consciência. Olha por exemplo no que toca a flores. Sem compaixão, colhem as mais belas, atam-nas em molho e depois, quer para celebrar a dor quer a alegria, oferecem beleza morta, .
— Por isso vivo em pânico, ainda bem que não sou assim tão bela.
— Pelo contrário, além de seres uma bela flor, consegues também ser uma flor bela, lá onde não se vê, e, toma nota, isso entre os humanos não é fácil. Muitos não passam de encadernação de luxo em obra vã.
Pairou o silêncio e, passada uma eternidade, ela voltou a falar:
— Tu hoje foste a minha luz, o meu sol, quem me dera poder voar.
— Também gostaria de voar. É a liberdade !
— Não só. Quando o sol não viesse a mim, eu poderia ir até ele.
Chamei de novo o silêncio e afastei-me para que ela não visse o orvalho nos olhos do seu sol.

segunda-feira, 12 de março de 2007

(74) O ESSENCIAL

Em casa dos que me são queridos, habita agora outro ser.
Bolinha de pelo branco e irreverência quanto baste, própria da idade, chegou mês e meio após o nascimento.
Ali tem estado, deambulando pela área restrita do quintal, criando os seus próprios espaços e hábitos e depositando com frequência, muita mesmo, o resultado intestino da ração diária ingerida.
Rosno e ladro com alguma precisão.
Para o conquistar tive de juntar alguns insultos e latidos.
Olhando-o, observo e divago.
Vem geneticamente equipado para utilização quase imediata do essencial. Respira, cheira, ouve, late, rosna, ladra e sobretudo morde.
Devora a parca e medida ração, chama a atenção para obter companhia e, mais, a artimanha já faz parte do seu ferramental , pois acata ordens de aquietação, superando a ansiedade, na certeza da recompensa.
E quando apanha as minhas pernas à feição até simula uma queca .
Quando lhe abanam um grande osso com algumas raspas, pede paz e isolamento, rosnando para quem o quebrar.
É o sentido de posse, pois algum senão havia de trazer.
Estes processos simples, dádivas naturais, asseguram-lhe a melhor vida de cão que poderia ter e assim viverá intensamente enquanto a natureza o permitir.
QUE BOM SERIA ESQUECER E SER CÃO COMO ELE !

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

(73) O REGRESSO

Desculpem lá o tamanho e a euforia.
É que algures dali saiu em tempos a minha nave em passeio espacial de maravilha, tendo, por sorte ou azar, esbarrado neste planeta prisão, onde e incompreensivelmente, ficou retida.
Desculpem, reitero, o êxtase acelera-me e dá-me ganas de mergulhar, sem saber voar, sem medo, sem servidões, livre, na tentativa de regressar ao meu sítio.
O quê ? O conhecimento e a ciência dizem-nos que muitas daquelas estrelas já não existem ?
Pode lá ! Eu estou a vê-las! Ou, por aqui, já nem posso acreditar no que vejo?
Para que servem esses tais de ciência e conhecimento?
Será para aditar angustia e cortar cerce a esperança de regresso?
Será que a minha estrela está na lista das extintas, sendo em vão o retorno, deixando-me no espaço para a eternidade sem acolhimento?
Ciência e conhecimento eu vos declaro culpados. Assassinos confessos dos meus sonhos, minhas ilusões...

domingo, 4 de fevereiro de 2007

(72) OCASO

Alguém me perguntou quantos anos tinha.
Após alguma reflexão e lembrando Galileu, respondi não saber, talvez poucos.
Li o espanto no rosto do meu interlocutor e esclareci:
Sim, os que terei serão os que me restam, sendo úteis se deles fizer bom uso e a soberana natureza o permitir.
Os outros já os perdi, são virtuais, mero registo de memória.

sábado, 3 de fevereiro de 2007

(71) A INTRUSA




Aqueles que me tem muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou
Não sabem que passou um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.. (F.E.)

sábado, 27 de janeiro de 2007

(70) O TEMPO E A SUA MEDIDA















Conta-se que um sujeito muito crente, também endividado e caloteiro, pouco escrupuloso a cumprir palavra dada, num dia de mais aperto, não hesitou em recorrer ao apelo superior.
Assim foi, armado de matreirice, perguntar a Deus o que eram para Ele o tempo e o dinheiro.
Ora, meu filho, (de resposta obteve) um milhão de anos para mim não é mais que um segundo e, podes crer, um milhão de euros é como se fosse um cêntimo.
Ai, meu Deus, resolvia todos os meus problemas se me emprestasses um cêntimo. Podes ?
Ora, meu filho, muito simples, espera só um segundo!
E o tempo é isto !
Pura invenção do terráqueo para controlo não sei de quê.
Que de felicidade não.
Os restantes animais da criação, não sabem de todo o que é o tempo e, que me lembre, nenhum usa relógio.
Não lhes padece o interesse dum passado ou futuro e porventura vivem em plenitude o “tempo” que a natureza lhes concede, sabendo nós que nesta arena alguns, e pela nossa medida, tem passagem meteórica, apenas para garantir a continuidade da espécie e a lenta evolução.
No entanto, tem uma vida, vivendo-a por inteiro. Não inventam!

E como o “tempo” acabou, termino a pedir deste texto noticia não façam, pois receio me neguem a alta que há tanto “tempo” almejo.

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

(69) O TESOURO


Olhos postos no céu, fui na corrida ao oiro.

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

(68) ILUSÕES


As minhas ilusões, doce tesoiro,
Também as vi levar em urna de oiro
No mar da vida, assim... uma por uma...
F.E.

domingo, 24 de dezembro de 2006

(67) ORAÇÕES

Caça. Uma das paixões do Januário
Era também muito crente, coisa que não casava.
Esses seus olhares para o alto, implicariam obviamente bondade e piedade, virtudes não compatíveis na matança por prazer.
Mas enfim, a cada qual sua moral e lá ia usufruindo do seu gozo.
O sonho, a meta, era a caça grossa.
E, do tanto sonhar ao realizar, foi uma penada.
Gastou o que tinha e não tinha e lá embarcou.
Dizimou. Sem dó nem piedade e por mera e vã glória.
E dizimou o que na gana lhe deu, até ao encontro com o leão.
Ali, em frente ao poder do rei, os nervos não aguentaram, largou armas e bagagem e, como o povo diz, cavou.
Correu, correu e o rei no seu encalço.
Âs tantas esparramou-se. Fechou os olhos perdido e, esquecida a sua frieza na matança, levantou os braços ao céu, soluçando e rogando:
Senhor, fazei que o animal seja crente.
A selva aquietou-se. Ainda a medo, abriu os olhos e o milagre estava à vista. A grande fera de rojo, patas dianteiras justapostas, erguia a grande cabeça enjubada e balbuciava.
Dissipado o pânico, sorriu o Januário. Afinal fora atendido !
Não era caso para jubilo e disso ficaria certo se os animais entendesse.
O leão orava sim, agradecia ao senhor aquela magnifica refeição.
Crente, mas também não piedoso.

Não surge fácil a tarefa de Deus, em face do contraditório dos rogos, tornando-se evidente que o sol quando nasce não é para todos.

sábado, 23 de dezembro de 2006

(66) VIRAR O BICO AO PREGO


Não consigo entender a passividade das formigas quando um pé humano, com intenção ou sem ela, pisa um dos seus carreiros.
São uns centos daqueles pequenos seres que ali são destruídos e, aparentemente, o facto não perturba a continuação da tarefa do ir e vir, ressalvada uma ligeira agitação.
Curioso do que pensam disso os outros humanos, resolvi sair à rua armado de micro e câmara, interpelando o passante, coisa muito em moda nos tempos que correm.
Cheguei à conclusão que a maioria age como as formigas. Regra geral não sabem, não tem opinião, não tem tempo e quejandos. O que importa é o constante ir e vir.
Emoções ? Nem por isso.
Foi giro e absorvente, porventura sem resultados práticos.
Caricaturo aqui duas ou três dessas entrevistas pelo seu destaque_
1. Encarou-me. Eh pá, não sei, talvez fosse útil nomear uma comissão para estudo do assunto e ... interpõe um sorriso alarve e exclama... Eh pá isto é para os apanhados!
2. Aprumou-se, ajeita o visual, e certamente na esperança de sair no noticiário das oito, desata num discurso complexo, falando, falando, e não dizendo nada. ( Onde é que eu já tinha visto isto ?)
3. Outro decerto me conhecia. Fitou-me, virou costas e rosnou “o gajo é doido”.
Fácil se torna retirar a conclusão que ninguém quer saber de ninguém e o sistema é tocar para a frente mesmo que a meta seja atrás.

Deu-me gozo e por tal vou preparar outra entrevista.
O assunto tem de ser explosivo.
Por exemplo perguntar o que pensam dum ser gigantesco que anda a passear na baixa pombalina, espezinhando com a sua patorra 430, humanos, viaturas, edifícios e dando piparotes aquelas belas estátuas, quando alça a perna para passar para lá do arco da Rua Augusta.
Aqui vai interessar sobretudo a cuscas, mirones e radicais que de certo vão arriscar para dar uma olhada e depois poder contar, aumentando... Se escaparem.
Olha, aquele tipo vestido de branco a dizer-me para não brincar com a câmara que é muita cara. Outro sem sensibilidade.
Que Deus me perdoe.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

(65) ESCUTANDO



É proposto reflectir sobre a influencia que possa ter tido em mim o atendimento de prevenção do suicídio, anónimo, solitário e pontual em que durante anos escutei a angustia, o desespero e a solidão dos outros.
Quando iniciei essa escuta, há muito andava eu prenhe de raiva e intolerância. Duas figuras um tanto mesquinhas porém garantes da continuação da vida, mesmo quando tudo indica o contrário. Magnificas substitutas do desânimo e da apatia, estas por certo levando a outros caminhos.
Creio que nunca fui menino e daí sempre considerei a vida tarefa árdua. O fardo é difícil de transportar na subida e, por vezes, também na descida, ao contrário do que dizem dos santos.
O intolerante, por demasiado assertivo e pleno de disciplina, não é de todo bem visto. Assemelha-se ao ditador.
Porém nele coabitam a convicção e a justiça.
Quando critica os outros, exige o dobro de si.
Já a raiva é menos nobre, tem outra cor.
É aversão, falta de crença, não aceitação, contrariedade. O “porquê eu ?”.
Pela via errada, é luta contra a soberana ditadura da natureza.
Lá me integrei no tal de atendimento. Anos pesados que foram !
Na mistura de todas aquelas cores de sofrimento, mergulhei as minhas emoções e dei o braço à amargura dos outros.
Notei existirem dores mais fortes que as minhas ou pior suportadas, atingindo por vezes o desejo expresso de partir.
Acabei também por escutar com todos os sentidos, aquelas vozes sem rosto, no grito dos seus pesares.
Partilha ? Não, não creio ! Foi por inteiro !
Pacifiquei a alma. Serenei.
No reino das solidões consegui situar a minha.
Lavei a raiva, aceitando a dos outros.
Aos outros aceito e compreendo, e até mantenho amizade com seres com vidas, sentires e condutas diferentes das minhas, na convicção de que não sou dono da verdade, nem sequer sei bem onde ela mora.
Intolerante, ainda sou, comigo próprio. Exijo-me.
Um destes dias irei perdoar-me! Prometo !

E assim a vida me mostrou que, e apesar de, sou um privilegiado.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

(64) IMPASSE







SER SEU AMANTE, TENTEI, NÃO CONSEGUI.

SER SEU AMIGO, NÃO DEIXOU.

MORRI !

sábado, 2 de dezembro de 2006

(63) A DÚVIDA



Tenho feito progressos na aceitação da loucura e sua dimensão.
Falo da minha claro. Embora reconheça que todos somos um tanto, dependendo sempre da opinião do outro e do próprio conceito.
Os passos foram temer, compreender, aceitar.
Tenho por isso de repetir algo que escrevi e cujo sentimento perdura:

Se me fosse permitido separar a humanidade em duas partes, os loucos e os outros, e, por modéstia, me colocasse no sector dos outros, restar-me-ia a angústia de não saber o que eles sabem que eu não sei.

sábado, 18 de novembro de 2006

(62) A IMAGEM



Acordei esta manhã na disposição habitual.
Sabem quando se acorda não enxergando, nem a roupa nem justificação para mais um dia de luta ? Sabem ! Evitam-me o fastio de explicar, pois assim foi que me arrastei ao quarto de banho.
Ali mora o mais confidente dos meus espelhos, aquele com quem mantenho maior intimidade e no fundo me olha sem os atavios e adereços que adoçam a figura e o grupo social impõe.
Uso com ele de certa sacanice, confesso, pois, para obter respostas positivas, lhe troco as voltas. É assim que diariamente e após mimo cá, mimo lá, lhe coloco a pergunta dos contos de embalar.
Espelho meu, espelho meu, diz-me que não há tipo tão feio como eu.
Tudo começou a correr mal quando ele me quis gozar no intuito evidente de azedar o dia e respondeu mordaz:
“mas não, mas não... há por aí tipos bem piores do que tu “
Tanto desatino irritou-me e atirei-lhe a saboneteira, estilhaçando-o, e ele, mudo, devolveu-me uma imagem horrível.
Boa. Era mesmo o mais feio.
Já tranquilo sentei-me na sanita, e, cumprido rapidamente o objectivo, saltei para o duche e até cantarolei.
Já tinha que fazer. Ia comprar um espelho.

(61) AMARELO

Sem me captar grande interesse, decorria a reunião em normalidade, não fora a chata da sujeita que me coube por vizinha. Tagarela... Tagarela por inteiro...
E pelas tantas e pelo desinteresse do paleio, desliguei, deixando a sujeita em continuado monólogo.
Voltei a ligar quando ela, no recheio duma qualquer frase, afirmou detestar todos aqueles tipos vermelhos que nos rodeavam.
Aí, não resisti e na tentativa de a aquietar, sem saber o que o feito me reservava, ironicamente exclamei:
“É verdade, ainda bem que você é azul”
A resposta veio embrulhada num ramo de bemmequeres:
“Notou ? Foi por isso que me sentei junto a si, adoro o seu azul celeste.”
A tipa, além de tagarela era indubitavelmente daltónica e em definitivo calou-me.
Aterrorizado, posso dizer, levantei-me e saí em silencio de sorrido amarelo.
Cá fora corri a um espelho e dei graças, não havia manchas verdes.
Porque sim, eu sou amarelo e detesto estas reuniões de vermelhos e azuis.
Felizmente ela não me tocou !

(60) JUSTIFICAÇÃO


Se vamos definir o louco por aquele que perdeu a razão,
teremos de definir o estado psicológico de quem julga a razão.
Por mim diria que somos razoavelmente razoáveis entre alguns momentos de loucura.
E daqui eu não saber de que lado me colocam.
Estou num deles e, certamente, viajo para o outro.
Por força vou equipado (a tal bússola, relógio, máquina fotográfica, gravador, cadernos de apontamentos, etc etc e até mesmo o passaporte, pois a loucura razoável não é exclusivo dos países da CEE).
E tudo isto porquê ?
Julgo-me um tipo porreirinho e no regresso, se for caso disso, poderei com provas publicitar o deserto ou o oásis, conforme seja o caso, ajudando os indecisos.
Previdente e sobretudo disciplinado. Mas ainda mais curioso na matéria.

(59) DO OUTRO LADO DA LOUCURA

Durante vários anos foi diário o meu contacto com o Júlio de Matos.
Vejo pelos sorrisos que isto não começa bem. Não sejam preconceituosos.
O caso é que vivia ali perto num alto sétimo andar, abrangendo a paisagem daquele belo parque da cidade e, na rua, quase obrigatório era o caminhar junto ao longo gradeamento.
Numa dessas ocasiões, foi a minha atenção activada por um pst-pst
Pelas grades espreitava um rosto, entre curioso e apreensivo, de olho brilhante e ar inteligente, prenhe de cumplicidade.
Ao meu bom dia, correspondeu e perguntou:
"Sabe por acaso quantos são ai dentro ?"
A questão, por dúbia, obrigou-me a alguma reflexão e a responder na verdade, a minha:
"Não sei, talvez muitos"
Segui, de novo acompanhado pela frustração da minha incapacidade de voar

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

(58) SOLIDÃO... QUE SOLIDÃO ?






DIZ O MUNDANO: É O INFERNO
DIZ O ANACORETA: É O PARAÍSO

Aceitemos estas e todas aquelas que preenchem o leque intermédio, das cores brilhantes aos cinzas mais negros.
Pela condição humana e após o empurrão uterino, estamos sós e sem preparação para o percurso.
Uns herdam a dádiva de serem queridos, desejados e amados, outros não tanto.
Nessa caminhada de pé posto que é a vida, cada um vai colhendo o tipo de solidão que lhe cabe, senão por escolha, no mínimo por atitude, esquecendo que neste teatro o cenário é essencialmente de espelhos a reflectir a prática da sua postura.
Não sinto a solidão como um malefício, antes quase uma opção, carecendo duma gestão espiritual serena, abrindo brechas onde caibam sentimentos que sem os outros não obtemos.
Reconhecendo a presença indestrutível da solidão há que saber viver com ela, única forma de adoçar os seus efeitos.

(57) O ADEUS À LUTA

Ao cabo de todos estes textos perdi-me nos meandros desta luta e não atino se venceu a solidão, a vontade de estar só ou simplesmente houve acordo.

Sem saber assim fico, se estou só por coacção ou opção.

De qualquer modo, acomodei-me e sentido não faria continuar a bater em ferro frio.

Vou em cruzada a outras lutas.
Nos campos de batalha dos preconceitos e loucura
sem lança, sem cavalo e sem aio, conto que finalmente esmoreçam estes meus devaneios.
ATÉ

terça-feira, 7 de novembro de 2006

(56) O CHILREIO


Quando passei sob o velho e imenso plátano, corria manso o Outono e o Sol, em fim de dia, entre ensonado e teimoso, tentava sacudir os aconchegantes farrapos de nuvens à sua volta.
O chilreio cativou-me. Não resisti e, contra natura, resolvi cobrar a minha quota de cusca, tentando perceber o que por ali se dizia.
As aves chegavam aos bandos, regressadas da grande aventura do dia corrido.
Procuravam poiso para a noite próxima e na excitação da chegada e do convívio, gritavam em chilreio as aventuras das últimas horas, vividas em intensidade na procura e conquista do verme, nos voos picados, o espadanar nos charcos e os namoros. Não queriam de todo ser ouvidas, queriam apenas ouvir-se para acreditar na realidade do tempo vivido.
E cada novo bando era chilreio renovado e aumentado.
Fechei os olhos. Tão semelhantes as encontrei aos humanos.
Na ânsia dos seus relatos. Chilreavam em uníssono e muito embora ouvissem os outros, seguramente não os escutavam, satisfazendo-se naquela afirmação do eu... eu... eu...
Algum mérito eu credito aquelas aves na comparação atrás feita.
O chilrear foi melódico e o silencio profundo, logo logo que o Sol se tapou.
Com os homens é raro.

sexta-feira, 3 de novembro de 2006

(55) PARA SEMPRE


Os outros para mim
Passam ao largo
Roçam-me ou
Atravessam-me.
Neste último caso, cativam-me à eternidade
.

quinta-feira, 2 de novembro de 2006

(54) CUIDADO NÃO APONTE


Um favor eu quero pedir aos poucos que me visitam:
Não entendam dos meus textos ou das suas entrelinhas,
fácil critica de poleiro ou afirmação gratuita
O relato do que sinto ou me é dado observar,
destinatário não tem,
sendo tão e tão somente o desejo de mudar.
Não esqueço que esse gesto, do indicador esticado,
deixa ali aqueles três dedos que para mim estão a apontar.

(53) A RECEITA



Os meus momentos de felicidade tem sido lampejos.
Suponho por isso legitimo ansiar pela plenitude.
Numa dessas revistecas que tudo solucionam, era prometida a conquista da felicidade em dez passos, com o aval de não sei quantos cientistas e testemunho de outros tantos supostamente felizes e decerto também bem pagos.
Céptico por natureza, não deixo porém de estar aberto à mudança.
Esta atitude e a aparente simplicidade das dez tomas do milagroso milongo, umas diárias, outras semanais, embarcaram-me na experiência, entrando desde logo nas tomas diárias.
As duas primeiras seriam canja.
1) Cortar metade do tempo a visionar TV
Tirei a ficha da tomada. Dada a qualidade da programação, estava a usar para adormecer. Cá me arranjarei e, se necessitar, tomo um soporífero.
2) Tratar duma planta
Isto adoro. O problema é que trato de muitas e fico receoso do perigo da toma em excesso, mas esperançoso que daí mal não venha
3) Dizer olá a um desconhecido
Teria de sair. Sem hesitar, aperaltei-me e, todo janota contra o meu uso, desci as escadas.
Cruzei-me na porta com o tal desconhecido. Franqueei a passagem e disse OLÁ.
A primeira decepção. O tipo, carranca afivelada, olhou de soslaio, passou. Não correspondeu, nem agradeceu a gentileza.
Sem perca de tempo, saí e deparei com uma mulher ainda jovem. OLÁ, disse eu, quando se aproximou. Não olhou, levantou a cabeça e prosseguiu, certamente convencida que eu pretendia um engate.
A adrenalina começou a borbulhar e fiquei especado.
Entretanto aproximava-se uma velhinha com ar seráfico. Afivelei o meu sorriso às comissuras, sem receio de mostrar os dentes que já não são meus e, na aproximação, gorgeei o meu melhor dos OLÁS.
Boa. Parou. Fitou-me compadecida e disse:
Tenha paciência. Não tenho trocado.

Não tomo mais nada
Desisto de ser feliz por inteiro, contentar-me-ei com os lampejos. Dependendo de terceiros, o grau de dificuldade sobe em flecha.
No entanto sem responsabilidade nem garantia de êxito, estou ao dispor para indicar os restantes sete passos.
Pode dar-se o caso sejam mais “felizes” do que eu.

(52) O ECLIPSE

Estou com problema sério.
Ao rever os textos, supostamente por mim escritos, reconheço o tema e a ideia, não a forma. Olho com espanto o escrito daquele estranho a trabalhar a minha ideia.
O que quer dizer que, se fizesse daquilo folha branca e voltasse a pintá-la, seria com outras cores.
Acham grave ? Devo ir às medicinas ? Nada de sorrisos, ajudem-me.
Em principio pensei fosse traição da memória, aceitável e lógica causa dos meus 525 anos estelares.
Pensei depois talvez resultasse do facto de escrever, como falo, sendo razoável que as palavras fossem levadas pelo vento, pois na maioria não passam de conversa.
À cautela, homem prevenido vale por dois, e receando seja do chip memória, vou preparando justificação para a desgraça.
Já que ela nunca vem só, venha no menos acompanhada de algum optimismo.
Logo uma luz se acendeu.
No mínimo ganho duas criticas ao escrito. No inicio a autocrítica, sendo a minha pouco benévola, e mais tarde, em face do irreconhecível documento, a critica dum terceiro, eu próprio, esta à evidencia mais isenta.
Outra vantagem se me deparou de imediato: aos que nos magoam e perdoamos, acresceria o consolo de os esquecer, facto sem ocorrência na memória plena.
O verdadeiro problema é que não. Não é do diacho da memória.
Vejam só, jamais me esqueci do número atribuído ao meu Pai na corporação de que fazia parte, e não me venham com tretas de memória recente e passada, pois o mesmo me acontece em casos de ontem e anteontem. Basta que algo me toque... e tocado viro outro.
Porque será então ? O texto está compreensível ?
Acham valerá a pena escrever tudo isto de novo ?

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

(51) A CRISE





O puto parece preocupado, agressivo ou chateado ? Não
Para o futuro garantir, apenas presta atenção ao jornal que tem na mão.
Na escola já pouco aprende, basta ler ou soletrar e até cem saber contar
No desenho é a estrelinha e depois é acertar.
Lá em casa ? É mais do mesmo.
A mãe, o pai, o irmão e pensaram, vejam bem, dar ao gato essa instrução (qu’ele até vai arranhando !).
Grandes descobridores, antigos donos dos mares e de meio mundo também, ficou daí a mania que o trabalho é fantasia e coisa que não convém.
E assim a navegar, dou por certo irmos ao fundo.
Mas já sendo campeões, pois com a França lideramos o gasto no euromilhões, não interessa mais a crise, se há dinheiro para comer, nem tão pouco para vestir, o que interessa, podem crer:
É apostar, apostar,
alguém há-de pagar
e o que der é para curtir

(50) (CON) VENCIDO PELO CANSAÇO

Da minha odisseia, mesmo quem já foi chateado, apenas faz pálida ideia.
Tudo começou naquele fim de dia de Outono... com licença, não vou citar ... a brisa, o pôr do sol e outros adereços, vou directo ao que interessa.
Pelas 20 horas, toca o telefone e atendo.
Uma delicada voz de mulher pede-me para chamar a Joana.
Por bem ou por mal, estava só.
Disso fiz informação à senhora que se desculpou e foi-se.
Pelas nove, novo toque.
Era um puto que me pedia para chamar a Tia Joana.
Ligeiramente intrigado, esclareci o engano.
Uma hora mais tarde era um sujeito de grossa voz.
Pedia para chamar a filha, a Joana.
A minha panela que em lume branco já estava, passou à fervura e a tampa saltou.
Depois de alguma troca de mimos o sujeito mandou-me à merda.
Eu desliguei... e não fui !
Não digo mais nada.
A partir daí e precisamente de hora a hora todos queriam falar com a Joana.
Não discuti mais.
Às oito da manhã, completamente derreado, olhos encovados e a bocejar, resolvi ir encostar a cabeça na palha, um pouco em sobressalto.
De solavanco em solavanco lá desci o penhasco do sono e entreguei-me profundamente...
Estava nesse vale da paz e um som estridente e repetido, acordou-me.
Era a campainha da porta e claro, eram nove horas.
Vesti o roupão e fui abrir.
Vinha ensonado e fiquei extasiado.
Deparei com um sonho de mulher, leve, sem pinturas ou mascaras, irradiando paz e frescura, só faltando abrir-lhe a cabeça para ver se também seria assim por dentro.
Olhou-me sorridente e disse:
Sou a Joana, a sua nova vizinha, peço desculpa de incomodar tão cedo.
Vinha ver se deixaram algum recado para mim.
Sem saber o que fazer, mandei entrar.

Ai, esta memória, como relembrei isso agora ? Tantos anos passaram e... raios, lá está o telefone outra vez:

Joana, atende aí!

É claro que os preconceituosos estão já a pensar:

“melhor teria sido que ele fosse à merda como o mandaram”

Mas não, enganam-se. E além disso poupamos uma renda de casa.

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

(49) O MISTÉRIO

AMAR É CONTIGO ESTAR
ESQUECER QUE SOMOS DOIS
ESTAR SÓ E TER

(48) O DESABAFO

Desta vez o sujeito que coabita comigo saiu da linha.
Daí resultará uma briga e tanto.
De resto, e consultando os meus arquivos, a harmonia, se existiu, limitou-se à infância, tempo em que já mostrava aquele seu jeito de ser.
Ultrapassada essa época própria da inocente candura, iniciou o seu rosário de acusações à minha forma de estar, imputando-me o facto de nunca termos sido meninos de verdade.
No fundo somos um do outro e até penso que nos completamos, talvez até pela relação de tempestade e bonança e do seu vice versa.

Nunca diria que a relação seja de amor-ódio, antes de amor-dor, de que ele, inexplicavelmente, parece tirar prazer.
Não faria sentido a vida de um sem o outro e até aceito as diferenças.
São sempre vantajosas na temperança dos actos. Conversamos.
Somos Balança, supostamente equilibrados, disciplinados e outros ...ados.
Por tal não cai bem, o abuso de que ele faz constante uso. Garantes do signo ficam apenas os meus actos.
As tarefas são concretas: a ele cabe seduzir e cativar, a mim manter e sustentar. Deste meu trabalho indispensável à continuidade, obviamente não transparece o charme.
Semelhança a esta aridez, só encontro no trabalho anónimo das lidas de casa, tanta canseira feita e desfeita, nunca concluída nem reconhecida.
Claro não estou a puxar a brasa à minha sardinha. Só queria um pouco mais de respeito e reconhecimento.
Gostaria que, deitado eu, para repousar e cuidar desta nossa morada, não viesse dos seus devaneios, donde por vezes regressa tantas da noite, e inopinadamente, sem nada me contar ou discutir essas aventuras virtuais, me obriga a pegar na caneta ou a digitar directo ao PC, as extravagancias imaginadas nos seus delírios.
Gostaria reconhecesse não poder satisfazer esse vicio sem mim... retirando arrogância, intolerância, petulância ou outras ...âncias de que é tão fecundo.

Sim. Mas isto já vai longo e a causa do desabafo por esclarecer.
Vamos lá.
Sorridente, simpático, mordaz, dizia que eu, bastas vezes no passado, “nos” obrigara a vestir a pele do animal (e isto no sentido pejorativo, não tendo o burro culpa, antes havia de merecer reconhecimento dos (des)humanos que o escravizam e exploram).
Ferido, amesquinhado, contestei, sem grande convicção, rebatendo o exagero.
Levou-me lá ao fundo a rever algumas cenas das fitas do nosso comum passado noutro espaço temporal, em que também ele próprio me dava mais facilidades.
Tinha razão. Estava demonstrado.
Ele sabia, porém, ter sido a necessidade da continuidade e no contexto de então.
Perdi. Foi cruel, nem mostrou compaixão.
Valerá a pena entrar na senda da mesquinha vingança e deixar de lhe passar textos ?
Meditarei...e vou ter em conta a solidão. Não vivo sem ele.

sábado, 21 de outubro de 2006

(47) NO REINO DA MENTE




NO MARAVILHOSO REINO DO FAZ DE CONTA
NEM SEMPRE VENCEM OS BONS
Reza a lenda que há muitos, muitos séculos, um velho Génio se passeava na Galáxia, voando no seu tapete e resolveu sacudi-lo. Duas ou três palmadas e salpicou aquela zona de inúmeras partículas de poeira, seguindo o seu caminho sem se aperceber do caos que havia gerado.

Por ali passou outro Génio que andava sempre a descobrir coisas e até usava uns aparelhos, depois chamados telescópios. Notando que as partículas de pó tinham uma cabeça, tronco e membros, logo ali resolveu chamá-las de humanóides, mais tarde humanos (para facilitar), começando a declarar aos quatro ventos que descobrira a HUMANIDADE.

Aquilo não era coisa de somenos e ao examinar as cabeças em pormenor, verificou que, muito embora algumas fossem ocas ou com recheio sem grande significado, quase todas incluíam um pequeno planeta e esse sim fervilhando de complicada vida. Era uma espécie de labirinto onde coabitavam milhares de pequenos seres, parecendo gnomos e com nomes engraçados (BONDADE, MALDADE, INVEJA, ÓDIO, COBIÇA, TOLERÂNCIA, entre muitos, mais ou menos importantes, e me perdoem não os descrever mas para tal é insuficiente o tempo de vida que me resta ).

Cada criatura era conhecida pela característica mais marcante da sua personalidade e é bom de entender que, existindo tanta acção e reacção, o equilíbrio só seria obtido por alguém com mão de ferro e de facto assim sucedia.

A rainha CONSCIÊNCIA e a sua conselheira RAZÃO, lá iam mantendo estável o nível da SAÚDE MENTAL, controlando aquele povo um pouco desordenado, indisciplinado e desobediente.

Claro que havia um Rei, o INCONSCIENTE! Muito metido consigo, poucos se lembravam de o ter visto, sendo certo que só surgia em determinadas ocasiões e, mesmo nessas, não para agrado de todos.

Dizia-se passar o seu tempo a organizar extensos arquivos secretos, ajudado pelo SONHO, personagem estranho e que aproveitava as ocasiões em que a Rainha mandava o pagem SONO apagar as luzes e declarar descanso geral, para deambular nos labirintos, acompanhado de brincalhonas, principalmente a FANTASIA, e servindo-se abusivamente do arquivo secreto.

A Rainha que também tinha os seus agentes, sabia destas escapadelas mas fechava os olhos, visto que alguns PSIQUES (já vamos saber quem eram) a haviam convencido que o SONHO até seria benéfico para a saúde.

Porém, ladino e descuidado que era o SONHO, perdia por vezes o controlo das brincadeiras, logo surgindo o terrível PESADELO, esse sim provocando alarme geral e despertando todo o planeta.

A vida prosseguiria de forma razoável no reino da MENTE, se numa densa floresta não vivessem um mau bruxo, o SOFRIMENTO, amigo, unha com carne, de duas fadas más, a DOR e a MORTE.

Malévolos que eram e sabendo das constantes intervenções da CULPA e do REMORSO, enviavam os seus emissários, TERROR , PÂNICO, DOENÇA, LOUCURA e SUICÍDIO, aproveitando a fragilidade de muitas daquelas criaturas para se intrometerem no seu seio. Alguns estoicamente suportavam os seus ataques, SERENIDADE, HUMILDADE, ACEITAÇÃO entre outros. Muitos mais como DESESPERO, ANGUSTIA, SOLIDÃO, LUTO, por menor discernimento, debilitavam-se facilmente e com frequência sucumbiam. Nessa confusão alguns estavam doentes sem saber e só os outros o percebiam, altura para a insidiosa DÚVIDA questionar a sua própria sanidade.

Para obstar a estas dificuldades e tentar manter a saúde da MENTE em níveis sofríveis, resolveu a Rainha criar um grupo de trabalho constituído por alguns supostamente ainda não doentes, a quem mandou ministrar ensino especial e chamou de PSIQUES. A tarefa destes especialistas da MENTE era árdua e o êxito nem sempre assegurado, dependendo da fixação que os doentes tinham nos bruxos e nas fadas e na sua capacidade de lhes resistir. Em alguns casos tratavam deles só com conversas, tentando, sem o dar a perceber, encontrassem em si mesmo as qualidades ideais para evitar a ruptura, noutros tinham de recorrer a medicinas que, não garantindo a cura absoluta, amenizavam a forma como o SOFRIMENTO, a DOR, a MORTE e as diatribes dos seus emissários eram percebidos.

Certos destes PSIQUES tinham até autorização especial da Rainha para convocar o INCONSCIENTE rei, e, quando o conseguiam, apertavam com ele de forma a investigarem alguns dos seus arquivos mais secretos e, por vezes, obtinham resultados satisfatórios.

Em desespero, e lançando mão de todos os recursos, criou também a Rainha outro grupo os VOLUNTÁRIOS que, embora não fossem técnicos e até não percebessem muito bem como o conseguiam, lá iam ajudando algumas das criaturas tão-somente porque as aceitavam como eram.

Não quero deixar de fazer referência a uma distinta senhora, a AUTO-ESTIMA, aia da Rainha. Todos os cronistas são unânimes em afirmar que por vezes irradiava tal luz que a MENTE parecia quase uma estrela o que era benéfico para a saúde mental.

Continuaria o meu relato, fazendo até alguns desenhos para melhor compreensão! Estou contudo condicionado no espaço/tempo e já me fazem sinal para concluir. O estilo clássico não vence neste caso e só poderei escrever: “e viveram muito infelizes para sempre...”, epílogo confirmado por notícias do século trinta e um.

Até à próxima! Vão ali com ar risonho a ESPERANÇA e a FELICIDADE que vou tentar acompanhar...