domingo, 15 de abril de 2007

(75) A FLOR E O SOL


—Obrigada !
Olhei à volta. Ninguém.
Óptimo, pensei. Agora já não falo sozinho, ouço vozes.
E logo anotei a vantagem de abandonar o monólogo.
O obrigada repetiu-se, e, dessa vez, guiado pelo som, descortinei uma florinha amarela, repousando em berço verde nas fissuras da calçada.
— Obrigada porquê ?
— Não me pisaste. Sabes, sou filha bastarda duma lufada de vento.
As minhas irmãs tem sido pisadas ou colhidas e assim fiquei só.
— Não gosto de colher nem de pisar flores.
— Como tu há poucos, por isso vivo nesse medo. Os homens são muito estranhos, mostram-se atarefados, atropelam tudo e seguem sem mostrar compaixão, correndo dum lado para outro.
Será que sabem o caminho ?
— Suponho que não.
— Certa vez passou por aqui um sábio que me disse que os homens são contraditórios:
Perdem a saúde para juntar dinheiro e depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde
Pensam ansiosamente no futuro, esquecendo o presente e acabam por não aproveitar nem o presente nem o futuro
Vivem como se nunca morressem e morrem como se nunca tivessem vivido
É tão estranho !
— Podes crer. Acham também que praticando os rituais aliviam a sua consciência. Olha por exemplo no que toca a flores. Sem compaixão, colhem as mais belas, atam-nas em molho e depois, quer para celebrar a dor quer a alegria, oferecem beleza morta, .
— Por isso vivo em pânico, ainda bem que não sou assim tão bela.
— Pelo contrário, além de seres uma bela flor, consegues também ser uma flor bela, lá onde não se vê, e, toma nota, isso entre os humanos não é fácil. Muitos não passam de encadernação de luxo em obra vã.
Pairou o silêncio e, passada uma eternidade, ela voltou a falar:
— Tu hoje foste a minha luz, o meu sol, quem me dera poder voar.
— Também gostaria de voar. É a liberdade !
— Não só. Quando o sol não viesse a mim, eu poderia ir até ele.
Chamei de novo o silêncio e afastei-me para que ela não visse o orvalho nos olhos do seu sol.

2 comentários:

preconceitos disse...

De Keops a 17 de Abril de 2007 às 09:03
Homem, transmite-nos essa sabedoria de uma forma plena para que nos tornemos atentos e sábios...e sensíveis...e corajosos!
Entendo-te e talvez me falte somente a força do testemunho. Também já preenchi a ficha de acesso ao clube dos "velhos sábios". Aguardo deferimento!
Um abraço.

De preconceitos a 18 de Abril de 2007 às 17:21
Ao clube, pese embora a idade, também não pertenço.
A conversa arrazando a humanidade foi, suponho, com o Dalai Lama.
Para mim resta o sentimento.
Grato pelo abraço que retribuo

De cadencia a 22 de Abril de 2007 às 10:44
Lindo !

De empatia a 18 de Maio de 2007 às 02:06
Não sabe que às vezes é preciso morrer para ressuscitar?
Nunca ouviu falar de como é importante podar a vinha, as árvores e mesmo as flores?
Penso que está cheio de PRE conceitos que não o deixam ver mais além! Se consegue viver feliz assim, tudo bem. Só para sua informação pediram-me outro dia para colher lindíssimas rosas:
1.- Para dar força aos arbustos e para que se desenvolvessem as que lá ficavam.
2.- Porque me diziam que as rosas colhidas e na jarra
duravam muito mais do que no jardim!
A riqueza deste mundo é não termos todos a mesma opinião.
De preconceitos a 18 de Maio de 2007 às 10:53
Escrevi o texto na convicção de que não falava de flores, antes de ternura... ou da falta dela.

ana ilda disse...

Amigo , apetece-me citar Séneca:

" Apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é, por si só , uma vida. "

Mil beijos

ana