terça-feira, 30 de dezembro de 2008

(211) É mesmo


The richest person is not the one who has the most
but the one who needs the least


Retirei esta frase dum mail agora recebido.
São tantos que por vezes nem dá para ler, correndo o risco de perder jóias.
Ler, ouvir, pensar, as nossas verdades ditas por outros, dá aquele gozo.
Esta frase contem a minha meta, o ideal do meu finito universo.
Este valeu a pena. Fico grato...

sábado, 27 de dezembro de 2008

(210) Pinguins

obséquio de Wikipédia

Assisti há dias a parte dum daqueles magníficos programas da NGM e de pinguins se tratava, esse bizarro, aparentemente desajeitado, nosso companheiro deste planeta azul.
Era exposta uma das formas como se defendiam do gélido clima, agrupando-se e apertando-se, em circulo, aos milhares.
Por conhecer os humanos, logo aqui me coloquei a questão dos coitados da periferia e, como se ouvido me tivesse, o apresentador passou a explicar que funcionava a equidade e periodicamente se iam revezando, sem reservas, sem luta, disciplinados.
E ainda foi focado o profundo empenhamento dos machos na guarda e aquecimento dos ovos, enquanto a fêmea procura alimento e a provável inversão de papeis após o nascimento das crias.
Não duvido ser este comportamento puramente instintivo e só me questiono da dificuldade humana na aprendizagem destas simples lições de vida e coexistência, uma vez que, para lá do instinto, foi o homem beneficiado doutras supostas mordomias, alcançando a fama de animal racional, bastas vezes não passando de mera alcunha.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

(209) Ainda Natal

Em extensão ao texto 207 e sabendo que os votos de felicidade ali expressos apenas serão entendidos por alguns, poucos, aqui reitero o alargamento dos votos, na esperança de alguns mais tomarem conhecimento deste

FELIZ NATAL E NOVO ANO

Weihnachten und guten Rutsch ins neue Jahr
سعيد عيد الميلاد والعام الجديد
Коледа и щастлива Нова година
BON NADAL I ANY NOU
Vánoce a šťastný nový rok
圣诞节和新年快乐
크리스마스와 새해 복많이 받으세요
Božić i sretna nova godina
Jul og godt nytår
Vianoce a šťastný nový rok
Božič in srečno novo leto
FELIZ NAVIDAD Y AÑO NUEVO
Christmas at maligaya bagong taon
Joulua ja onnellista uutta vuotta
NOEL ET BONNE ANNEE
Χριστούγεννα και Ευτυχισμένο το Νέο Έτος
חג המולד ו Happy New Year
क्रिसमस और नया साल मुबारक
KERST-EN HAPPY NEW YEAR
Natal dan tahun baru happy
CHRISTMAS AND HAPPY NEW YEAR
Natale e felice anno nuovo
クリスマスと新年あけましておめでとうございます


e o Google ainda oferecia mais idiomas, tendo eu o cuidado de escolher a nossa ordem alfabética, entre os oferecidos, para não magoar alguém.
Porém desisto, pois de repente me lembrei dos dialectos, subdialectos, etc etc, até os que se entendem por estalidos e para quem isto de grafias pouco diz e blogs ainda menos, sendo duvidoso me bastasse o tempo disponivel a crédito, nesta contabilidade da vida.
A minha mansa e sensata loucura, impediu-me de continuar, deixando-me este sedimento amargo da impossibilidade dos humanos se entenderem numa abrangência global, sem o calhamaço normativo dos conceitos.








Estando ali um gato, ainda lhe perguntei se, entre eles, tinham este problema.
Fitaram-me aqueles verdes olhos altivos e espantados, virou a cabeça e lambeu o pelo.
Ou não me entendeu ou despreza-me como humano, pelo nosso falso sentido de evolução e inadequado uso da vida por precário empréstimo tomada.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

(208) 愛

Tanta dificuldade para entender emoções tão comuns.
Basta clicar no titulo

sábado, 20 de dezembro de 2008

(207) Natais

obséquio da NASA

Tenho alguma dificuldade em aceitar o compasso da marcação dos tempos, estipulando-se que hoje é isto, amanhã aquilo, constituindo-se rituais geradores de grandes pressões, ansiedade nas pseudo obrigações, preocupação no vinculo da lembrança e, em grande parte dos casos, considerando o facto uma seca.
Exemplo: Porque havemos de festejar aniversários e não "diários"?
Afinal seria mais coerente, após receber a dádiva, dia a dia, quando acordamos e nos é permitido festejar a rota do sol, fazê-lo em pleno, esquecendo os desaparecidos ontens e os enigmáticos e talvez inexistentes amanhãs, omitindo memórias e vivendo um pouco como os outros animais nossos contemporâneos.
Com todas estas marcações de natais, páscoas, carnavais e quejandos, lá somos nós levados a anexar a essas datas, as nossas alegrias e tristezas coincidentes, coisas afinal diariamente connosco mas nessa altura exacerbadas.
Este é o meu sentir e, para os que comigo concordam e para os outros cujo sentimento difere, a que tem todo o direito, deixo aqui os meus melhores votos de saúde, serenidade, luz e amor, garantindo mais uma vez que os amigos são exactamente como algumas estrelas, posso não os ver mas sei exactamente que estão lá e também no meu coração.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

(206) boomerang

obséquio da wikipédia



Eis uma interessante e perigosa criação humana, misto de brinquedo e arma.
Requer extrema perícia no seu manejo, pois do preciso retorno, depende o preciso arremesso.
A perícia, em qualquer arte ou oficio, é a pedra de toque da correcta execução. Passa por rigoroso e constante exercício e também por profunda consciência, só possível quando a sua prática está prenhe de serenidade, aceitação circunstancial e sobretudo respeito pelas fronteiras e limites dos outros.
Afastado assim fica o egocentrismo e a ideia exótica de que o mundo nos persegue, quando afinal, o nosso mundo parece ser mera construção pessoal.
Referi o boomerang como poderia ter mencionado a palavra, a escrita e tantas outras acções, como até o acto físico.
Quando os procedimentos não são conformes ao estilo da época das nossas vivências, arremessamos à toa o "objecto" e, na falta da preciosa perícia, não o agarramos no retorno, ficando sujeitos a levar com ele na cabeça ou noutra parte mais sensível, quem sabe, para depois culpar o mundo e assim isolados nos mantermos.

Uma sugestão: não se usem armas tão perigosas, por brinquedos que pareçam.

domingo, 14 de dezembro de 2008

(205) Mulheres/Homens

Objectivamente podemos encarar o relacionamento mulher/homem, ou homem/mulher como queiram, segundo alguns aspectos inerentes às diferentes condições biológicas e sensibilidades, como seres da mesma espécie.

Tratando-se de seres da mesma espécie de prática assumidamente social, vivem em interdependência e, pese embora não troquem intimidades ou gostos afins, haverá de subsistir, como principio fundamental, o respeito pelo outro e a integridade dos seus limites e fronteiras, até por garantia reciproca, bastas vezes não assegurada.

Todavia e dependendo da aproximação, sobressaem dois grandes grupos.

Na vertente da sexualidade podem atingir um poderoso entendimento físico, quando a fusão dos corpos garante o tipo de êxtase, como dum só se tratasse, esquecida a partilha.

Na outra vertente, o elo porventura mais fraco, todavia mais poderoso, continuado e consistente, quando partilham intimidades, que não sexuais, e afinidades profundas, discutindo-as no sentir benigno do esclarecimento e evolução.

O ideal, utópico como é de uso, seria a conjugação destes elos numa só corrente, de forma a obter uma magnifica e unica ligação dos frágeis seres que afinal somos.

Apesar do cepticismo, há quem creia em milagres.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

(204) Sementeiras


A natureza, em seus engenhos e ardis, usa os elementos e os animais na promoção do processo das sementeiras aleatórias, garantindo assim a germinação de quase todas as espécies, pese embora a perca de milhões de hipóteses.
Todavia, por vezes, até da fenda da rocha brota o rebento.
Alguns humanos, imitam convictos o acto, semeando a eito palavras, suas e dos outros, sem mesmo medir consequências ou nelas reflectir.
Por sorte, grande parte, como na natureza mãe, cai em solo estéril e não germina.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

(203) Loucuras da noite

O vidro da minha máquina captou esta imagem numa das ultimas idas à grande cidade.
São os fantasmas do stress, ao fim do dia, quais pirilampos, desenfreados, alucinados, sem rumo e bufando dióxido de carbono, porventura na procura de abrigo, em fuga da anunciada fria noite
E eu, ainda mais louco, na busca da perturbada paz e do silencio.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

(202) Profundo silencio


Lá, na beleza das profundidades, onde impera o silencio.







As palavras, seres virtuais de estrutura complexa, fantasiam um corpo e sua alma e escravizam o homem, para tomar forma, usando dele a voz, a mão e por vezes a mente.

Assim conseguem expressar toda a gama de sentimentos, saltitando do amor ao ódio, da tempestade à bonança, da alegria à tristeza, da agressividade à doçura, tocando o negro e cinza, fronteira destes opostos.
Por vezes dúbias, podem até parecer o que não são, na incerteza dos limites e, excedendo-se, podem provocar a vida e a morte.

Tem porventura uma qualidade/defeito:

Quando expressas ou escritas depara-se a quase impossibilidade da inversão do seu sentido.

Senhoras absolutas da raça humana, nem os mudos escapam, a menos acumulem à iliteracia.

Daqui retiro ser o silencio efectivamente de oiro e por vezes preferível a mil palavras.

domingo, 30 de novembro de 2008

(201) Vida de cão




Foto da sua meninice.
Não deve lembrar-se.
Memória é defeito humano.
Todavia outros copiou.
Quando lhe digo:
Cãozinho lindo.
Saracoteia os seus actuais 40 kgs
E vaidosamente abana o rabo...

(200) O poder familiar




Tirania, ditadura e democracia, três regimes, entre outros, porventura distintos, tendo todavia em comum a tomada do exercício do poder.
O tirano toma todo o poder nas suas mãos e diz: farão o que quero e como quero. Tranquila maioria absoluta.
O ditador, mais brando, à socapa, cala as vozes contraditórias e, a final, declara a concordância dos que restam. Maioria absoluta trabalhada.
O democrata, mais doce ainda, arenga, arenga, proclama todos iguais, todos livres de fazerem aquilo que ele entende ser o melhor.
Amansado o rebanho basta-lhe a maioria relativa e nem precisa de cães.
E assim, para escolha de quem manda lá em casa, pede-se ao diabo que decida.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

(199) Carraças



Os gémeos desanimo e desalento, contrariando o conceito, na rapidez de movimentos aos nomes não fazem jus.
Ao acordar, deparei hoje com esses dois inseparáveis patifes à minha cabeceira.
De nada me valeria o protesto ou tentar mergulhar de novo no agradável mas abandonado sonho em que pairava.
Por regra não discuto, acato, arrasto-me ao cumprimento das tarefas matutinas, engulo o almoço, pequeno em demasia, e desando.
Sendo muito chegados, unha com carne, unânimes e tenazes nas suas perseguições, são carraças e lá seguem agarrados ao meu pelo.
Dissimuladamente aproximo-me da cafetaria e sinto neles o primeiro abalo ao odor pairante da cafeína.
Conhecendo o resultado, sorvo a mistela, lentamente e com delicia.
Minutos passados perdem a ousadia, esmorecem, e, como nunca sei quando recobram o alento, sem piedade, sorrateiro, pago e ali os deixo.
Por azar sabem onde uso dormir.
Todavia, e com sorte, só amanhã voltarão, pelo que vou aproveitar da oferenda deste belo dia de sol.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

(198) Currículo

Dificuldade: separar o trigo do joio











Perdido o hábito da leitura resta a adoração antiga pelas fitas de mistério onde aguçava o engenho e raciocínio na expectativa de descobrir o mau, normalmente entre os bons, escapando aos engodos do realizador.
Hoje essas fitas escorrem sangue e abusam dos efeitos especiais, antes na penumbra por falta de engenho e técnica.
Assim, quando o noticiário é a repetição do de ante ontem e ainda não quero dormir, lá me foge o comando para uma dessas séries, afastada a hipótese de adormecer pelo usual entremeio de basto tiroteio.
Para além disso, agradam-me as palestras.
Ah essas sim... e de preferência de temas polémicos ou intelectualizados.
Aí, quando não consigo espremer o sumo do palestrante, deleito-me na observação do publico e das suas deliciosas reacções.
Todavia há um sobreaviso a reter.
Quando o curriculo do orador é extenso, a coisa tende a não correr de feição, funcionando no mínimo duas variantes: o sujeito obriga-se a dissertar longamente para justificar aquele ou perde-se em intelectualidades e citações aleatórias, nada tendo a ver com a paciente assembleia.
Em ambos os casos cuidem-se: quando diz "e agora para terminar", não suspirem de contentamento, levarão pelo menos com mais quinze minutos de enredo, pois o bilhar é grande.
Não sou critico desta arte, mero observador atento, e daí creio que o paciente publico, no final, por alivio ou satisfação, troa em imensas palmadas.
Não fico doente todavia, pois sei que se inquirir duas ou três pessoas perguntando o que disse o homem, a resposta universal e unânime é o gaguejo em nada justificativo das palmas.
Em resumo e para terminar (já estou a tomar o hábito mas garanto não demoro):
Tantos cursos e carreiras, sejam eles de água fria ou a ferver, devem tomar da curta vida o seu tempo e, tais sujeitos, quando se sentem apertadinhos, de certo nem uns minutos terão para o chichi.
Lembra-me um puto, para não ficar diminuído lá no grupinho social, à sua vez disse que o pai também tinha um curso, o de tirador de cerveja, e estava a tirar o mestrado da bisca. A sapiência da inocência.
Na verdade, e apesar do desabafo, tenho apanhado belíssimos oradores que sabem o que dizem e para quem falam, interagem com o público e eles próprios se estão marimbando para o currículo, simples palavras em papel ou oradas, mor das vezes não certificando garantia.
São eles que me permitem distinguir os outros.
Bem hajam.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

(197) Loucuras

Numa época em que freneticamente todos correm para a loucura. há quem se queixe do custo da primeira consulta de psiquiatria.
Desse primeiro embate entre paciente e especialista terá de brotar a pureza do diagnostico e consequente processo terapêutico, a cozinhar entre história e técnica, daí o cuidado e tempo a despender nessa primeira.
Psiquiatra meu amigo, segundo seu relato, sofreu isso na pele.
Após os praxentos cumprimentos, o paciente tímido, acanhado, olhar evadido, deslizou molemente na cadeira que lhe foi oferecida, apático, incompreendido.
Após alguns minutos, para quebrar o impasse, surge o incitamento:
--- Então do que se queixa, conte lá tudo desde o principio...
O homem saiu do letargo e, de olhos brilhantes, reconhecido, disse:
---Bem, no principio criei o céu e a terra... blabla blabla
De madrugada, o meu amigo saiu, sorrateiro, sem ruído. O paciente, mesmo sem ser ouvido, continuou a relatar suas façanhas, ainda, salvo erro, no século V.
O especialista abandonou a psiquiatria e hoje passa o tempo a olhar o rio, deliciado com o pio das gaivotas...
Agora digam-me: os 90 euros previstos eram demasiado?
Uma autentica profissão de risco..

terça-feira, 18 de novembro de 2008

(196) Beijoqueiros

Deponho em favor dos beijoqueiros.

Pecará o gesto pela deselegância de execução.
Todavia, no seu vasto leque de atitudes e intenções, até poderei jurar ser acto dos mais praticados pelos humanos, superando muitos outros.

Cobre, absorve, a nata dos sentimentos, dos cândidos e ternurentos aos mais fervorosamente apaixonados, e, nesta beijoqueira democracia, até o beijo da perfídia tem assento.

Seus companheiros inseparáveis, o toque e o olhar.

No toque terno da mão, no abracinho, no abraço, no amplexo da fusão do corpo, a mando da alma, muda o olhar de expressão.
Podem ser de afloramento, cortesia, verdadeiro contacto, ou esmagamento, havendo a distinguir os pontos beneficiários desta caricia e, no acto, pra valer, deverão os lábios
tocar a pele nua.
Dizia que os humanos professam a cultura do beijo e o distribuem a esmo.

Em publico,
é óbvio e manda o pudor, são distribuídos pela cabeça, seus subúrbios e ainda mãos e braços.
Na intimidade não falo, os mais recônditos pedaços de pele usufruirão do beneficio e o critério de execução fica a cargo de quem com gosto o fizer.
Em coisas desta relevância sempre me interessou a opinião dos outros e foi assim que há dias perguntei a alguém, na segunda metade da vida, madura e culta, se via diferença entre o beijo nos lábios e na boca.

Da peremptória resposta estarrecido quedei:

---Na boca ? Que nojice ! Respeito muito o corpo.
Deu-me que pensar.

Saberá ela a diferença ou é o pudor a falar ?

Nojice ?! Conceitos são o que são, efeitos a considerar.

Tanta gente por aí se delicia comendo caracóis, bivalves, camarão e sorvendo por inteiro seu sistema vital, incluído o digestivo.

Reflectindo. Se os beijos que dei na vida cumpriram sua missão e o corpo vou mantendo, não vejo assim tanto mal, mas posso não ter razão.
Pronto, com razão ou sem ela, não me quero castigar.
Vou continuar a beijar.

(195) Abismos

Dizia um:
--- Hoje temos o azul negro do céu recamado de cintilantes diamantes
Dizia o outro:
--- Pois, amanhã não deve chover.
E por entre eles seguia seu destino, indiferente e sereno, extenso oceano, separando o prosaico do poético.

sábado, 15 de novembro de 2008

(194) As corridas

Possuis apenas aquilo que não perderes com a morte, tudo o mais é ilusão


Numa mini maratona disputada por milhões de concorrentes, ganhei em tempos a vida.
Imposta era a corrida. Esperado vencedor único e eliminados os restantes.
Não me cabia opção, nem vontade, nem conhecimento do eventual mérito do prémio. Impulso era o critério, nós as marionetas.
Vencedor, aqui cheguei sem pedir, beneficiei do usufruto da dádiva. Foi-me concedida a vida, o acesso ao conhecimento pelo livre arbítrio e longa aprendizagem, comum a outros vencedores, doutras corridas, doutros tempos, de semelhante modo impelidos.
De imediato fui inscrito noutra competição, todavia mais dura, porventura consciente e aparelhado com algumas sofisticadas armas.
Desta feita o êxito final, a morte, é assegurado a todos, abstraído qualquer mérito do percurso.
O processo inverte-se, não há empurrões de passo à frente, subsistindo todavia alguma falaciosa delicadeza cultivada segundo as escarpas do próprio percurso.
Seria lógico, nesta derradeira corrida, o vencedor ser o ultimo e talvez assim seja, dando a impressão que bastaria parar para vencer.
Mas não! Esta tem regras. Não é permitido parar.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

(193) Gorilas












Fotos por cortesia de wikipedia
Certos eruditos doutores, interessados e estudiosos, seguem afirmando, argumentando e colocando as raízes humanas bem fundo, chamando macacos aos nossos ancestrais, preferencialmente gorilas e chimpanzés.
A ser pejorativo o sentido e a haver ofendidos, estes decerto serão os macacos, pesem embora as semelhanças físicas.
Poderá o caso ser assacado de evolução ?
Pelo exame superficial da foto, verificamos que o animal é contemporâneo, fere o nosso sofisticado conceito de beleza, parece tranquilo, observador, de olho arguto, inteligente decerto, pois de outro modo como teria iludido a fila dos eleitos e resistido à generosa oferta da tal evolução ?
A tempo se afastou...
Apresenta-se desataviado, descalço, beneficiando do magnetismo terrestre pelo contacto sem interferências, não tem obrigações laborais, alimento sempre consegue da generosidade da natureza e de sexo lá se irá governando, aqui e ali.
Livrou-se do incerto e angustiante voto e também da gravata, e vai tentando a supremacia no seu pequeno grupo, aplicando meia dúzia de empurrões e tabefes, na utilização de DNA semelhante ao humano, contudo, e se vencido, não metaboliza a raiva e inveja, integrando-se sem ressentimentos no lugar que lhe coube.
Superando os gauleses nem sequer receará o tombo do céu na sua cabeça, por onde também não passará o temor que o dito evoluído por ali apareça e lhe suprima a beleza natural circundante oferecida pela floresta seu habitat.
E, quando no alto do galho, come a sua banana e displicente atira a casca para trás, nem sequer sabe que a natureza e seus auxiliares (terra, sol e água) rápido a degradarão o que obviamente os ditos evoluídos não conseguem ao depositar a esmo as cascas plásticas dos manipulados alimentos, cascas que levarão dezenas, centenas de anos a degradar-se, podendo até ceifar vidas nesse longo processo. E eles sabem !!!
Este nosso contemporâneo, pode ser macaco, mas parece ter escolhido bem ao safar-se de tanta involução.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

(192) OLÁ


Hoje o preguiçoso sol não atina, orgiando entre húmidas nuvens, só de longe em longe deixa antever um dos seus grandiosos orgasmos.
Todavia preparei-me, determinado a expulsar o desanimo e a tristeza.
Meti ao bolso uma dúzia de olás e outros tantos sorrisos, esse precioso e contagiante esgar de cujo uso o humano vem perdendo a prática.
Na gaveta por inúteis, ficaram os preconceitos e muitos outros sentimentos provocadores de angustia, dor e raiva.
Fui caminhando e distribuindo o que trouxera, sem olhar a quem e, sem encontrar espelho, em breve desisti, não porque me tivessem por louco, pois a verdade não me afecta, mais por ter, sem êxito, esgotado os bons recursos.
Resta-me a reflexão:
Devo atribuir culpa ao devasso e belo sol ou ao desenfreado galope da vida na ansiosa busca de metas para além da ternura e do afecto ?

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

(191) Esperteza saloia



Embora conste ser o homem animal politico, posso afirmar, com muito agrado, não ser da politica profissional, pese embora goste de visitar mercados.
Quando topo um, meto sempre o nariz, na antevisão do prazer.
São depósito vivo de usos e padrões sociais, numa miscelânea de culturas.
Desta vez entrei para comprar e aí sou cauteloso.
Olho, comparo e apalpo.
No caso de pouco valeria a apalpadela, pois dum molho de espinafres se tratava.
Fora da banca uma mulher já idosa, pesadona, obesa, diria, jus fazendo a tantos adoradores de comida.
Lá dentro, a mando daquela, homem jovem, talvez filho, talvez neto ou talvez outro qualquer vinculo que ao caso não vem.
Fui discutindo a exorbitância do valor atribuído ao molhinho e ela arengava, na sua singela cultura mercantil que sim, eram frescos, apanhadinhos há pouco e tinham muito ferro, ao que retorqui que apesar do ferro eram leves em demasia e muito mais ferro tinham os euros solicitados.
Às tantas, estando eu, como de uso, vestido à ligeira, para a frescura da manhã, as mãos me apalpou exclamando:
--Olha, tenho 69, é muito mais velho do que eu e tem as mãos quentinhas.
Não retirei conotação erótica e protestei com veemência:
--Mais velho !?!? Ora essa ! Ainda há pouco fiz 30 e o meu aspecto e barba esbranquiçada são da vida que levei.
A sua observação e falta de raciocínio não viviam sós, coabitava também a falta de humor, tudo transparecendo na estupefacção assumida naquele rosto envelhecido, implicitando: "coitado, tão novo e tão acabado".
O titulo do texto não ilude, aqui o saloio fui eu, pois acabei por pagar acima do valor justo, com disfarçados descontos nas batatas e cenouras.
Levei o excesso à conta do ingresso num espectáculo que nem sempre é tão nice. Deliro com estas coisas e espero que Deus me perdoe ou alguém a seu mando, se, por azar, ocupado estiver.
Juro que o piripiri não comprei !

domingo, 12 de outubro de 2008

(190) O gavião

Na tentativa do voo batia vigorosamente os braços e, de súbito, estava a planar na copa.
A surpresa do efeito baralhou-me.
Em desespero, enlacei um forte tronco que o velho senhor me estendia e respirei fundo.
Conseguira!
A esperança de repetir, aconselhava repouso, mas às minhas mãos faltavam pequenas, porventura grandes ferramentas: garras aduncas, um bico e rapidez de reflexo para calar o persistente zumbido dum teimoso e maçador moscardo.
O murmúrio da brisa soava a sorriso de malícia, face à minha inoperancia em resolver problemas comezinhos.
A ansiedade do fracasso iniciava os seus avanços quando o gavião, ligeiro e suave, poisou a meu lado e o grande e triste olho amarelo me fitou longamente.
Volvidas eternidades, disse ele:
--Tens os teus devaneios ?
Na certificação daquela insólita realidade e para não perder o equilíbrio nem sequer cocei os olhos ou me belisquei, e retorqui titubeando:
--Mas... falas ?
Mergulhando o olho profundamente em mim, retorquiu:
--Por má sorte. Era como tu, incauto e ambicioso, consegui o dom da fala e da memória, tendo de aceitar essa tralha de equipamento que os homens chamam de razão, consciência, inteligência, conjunto terrível na produção de emoções cujo malefício eu desconhecia.
Perdi a paz e serenidade e a regressão não é possível.
Deixei de viver a plenitude, o aqui e agora.
Ficou presente o sentimento de culpa e a sensação egoísta de sacrificar outras vidas para conseguir sobreviver.
Um inferno. No fim do dia pergunto-me se mereço viver.
Olha, se conseguires o dom de voar, rejeita todos os outros e assim usufruirás da singeleza da vida animal, sem ontens, sem amanhãs, sem remorsos. Sem esperança e sem passado.
E dito isto, lançou-se ao espaço e voou ligeiro.
Em simultâneo soou uma estridente campainha e, desequilibrando-me assustado, caí... da cama claro para de novo enfrentar a outra realidade.
Tocava o telefone e, sendo tardia a hora, deveria ser o diabo, personagem central na representação da existência de Deus e seu lacaio na execução do desagradável.
Fui atender... e era.
Até hoje... o amarelo sempre me lembra aquele olho sem lágrima, triste e tão choroso.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

(189) Desfazendo

Acabei de desfazer mais um.
Foram 365 dias desfeitos, um a um.

Essas alegrias, tristezas, desânimos e esperanças, entraram assim na virtualidade, nesse deserto onde as coisas se perdem, as boas e as más, e a que alguns virtuosos da palavra e do saudosismo chamam de passado.
Datam, rotulam, seccionam, como fazem a tantos outros rituais.
Suponho que o nosso ontem apenas represente experiência, como campainha avisadora de situações não iguais todavia semelhantes.
Não me posso queixar, sou como tantos outros e a sina é começar agora, dia a dia, a desfazer mais outro, até que a tarefa seja dada por cumprida.
Até é chato que tão disciplinado eu seja !

terça-feira, 30 de setembro de 2008

(188) A posse

Quando um Domingo me apanha na capital, ofereço-me uma fatia do dia, pequena seja ela, a deambular na Ribeira e sua feira de coleccionismo.
Mais cusca que comprador, miro e remiro as bancas dos vendedores de supérfluo. Das moedas aos pacotes de açúcar, dos selos às caixas de fósforos, postais e quejandos.
Certo tenho eu: o valor das coisas está na razão directa do desejo da sua posse.
E a posse é uma estranha figura, sinistra até, oferecendo uma aparente sensação de domínio e exclusividade, tanto mais agressiva quanto o objecto da posse mostra sua inutilidade na concretização do acto de viver e ainda carece de cuidados na sua manutenção e guarda.
A coisa é sofregamente adquirida, classificada, sistematicamente arrumada, por vezes escondida de olhares estranhos, apenas revista quando agregada companhia ou na ressaca de uma qualquer nostalgia.
O valor real e material da coisa apenas existe na mente do seu possuidor,
além dos valores também relativos que outros lhe possam atribuir, sendo assim fraca a sua função vital.
Sendo humano, (serei !?!?), negou-me a natureza a fuga a esta servidão
Quando jovem sofria ao desejar coisas fora do meu alcance material. À revolta contrapus resignação e disciplina. Dei assim a volta e hoje, podendo possuir essas coisas, refuto-as por inúteis.
Dizem-me estar no átrio do paraíso por me limitar, com raras excepções, às primárias necessidades da sobrevivência.
Tenho ainda um senão.
Dispondo de algum espaço, não deito coisas fora, conservo mas esqueço.
As coisas acabam por não cumprir a sua malévola função e decerto não me possuem.

sábado, 27 de setembro de 2008

(186) Beleza e dor



Dois pormenores dum magnifico monumento de homenagem ao sacrifício, dor e sofrimento
A visitar na Várzea de Torres Vedras

(185) Beleza e trocadilho


Não gosto de comer. Ponto assente e nada a fazer.
No acto instintivo de manter o esqueleto activo, não deixo porventura de cumprir essa submissão natural egoísta, ir devorando os outros, de preferência cozinhados.
Por vezes, quem convida ou é convidado, questiona na escolha e minha resposta invariável é: escolhe tu, tanto faz o que vier serve.
Resposta convicta e sincera, todavia chata e arreliadora para quem a coloca com a melhor das intenções. Não há mesmo nada a fazer comigo.
Foi o caso. Amigo, sem este meu mau feitio e apreciador da mesa e dos artifícios sobre ela a colocar, usa convidar-me a um restaurante zona oeste, por acaso acolhedor.
Nesta ultima foi interessante. Constava da ementa massada de cação.
Fomos atendidos por mulher esbelta, que respondeu nunca tinha provado, quando pretendemos saber se o peixe era o por nós suposto.
A resposta veio embrulhada num sorriso simpático e ingénuo, emoldurado pela sua juventude e ligeira maquilhagem.
Enfim, lá resolvemos partilhar a dose.
Para mim foi um raro momento de excepção, obrigando-me, pela verdade, conta a pagar, a dizer à dita empregada que afinal, contrariando a minha expectativa, aquilo não tinha sido de forma alguma maçada... fora efectivamente um prazer...
Também me acontece...

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

(184) Palavras


e muitas outras...
Desta vez, passeio à vista,
fui enchendo a mochila com mãozadas de palavras,
colhidas a esmo e sem critério.
Tarefa terminada e, na mirada, logo pasmei.
Tantas e tantas conhecidas palavras e, ali,
naquela insensata mistura,
tão vazias de sentido se mostravam,
mexendo-se atabalhoadas, acotovelando-se, sem ordem,
algumas felinas, agressivas...
Fora dum contexto, podem ser tudo e nada!!!
Sem desanimo, mochila a tiracolo, sai,
determinado a trazer ordem ao caos.
Depois, pelo caminho, fui esvaziando a mochila,
palavra aqui, palavra ali, sequentes,
cada uma aceitando a outra,
dando-lhe espaço, vida e significância.
E serenamente apreendi:
As palavras são como os afectos,
espelham-se nos outros
para desabrochar em plenitude.
Fez sentido esvaziar a mochila...

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

sábado, 20 de setembro de 2008

(182) Show na feira











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Nesta cidade e em estreitas ruas onde o vidro da minha máquina descobre destas coisas, é uso, uma vez por mês em parte do ano, ser montada uma feirinha rural onde os produtores da zona e alguns artistas, expõem os seus artigos.
Há por regra um grupinho a animar os visitantes.
De certa vez tive a sorte de presenciar um show, dinâmico, espirituoso e envolvente e atrás deles andei, com muito interesse, percorrendo aquelas ruinhas tão minhas conhecidas.
Aqui deixo a lembrança retida dessa maravilha. Parabéns.

sábado, 13 de setembro de 2008

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

(180) A busca


Lido comigo há tempo demais e continuo sem me conhecer quanto queria, mesmo suturando lacunas no traço do perfil.
Entre os humanos não devo ser peça única sofrendo desta anomalia e, neste caso, o mal dos outros anima-me, não por regozijo, antes pela solidariedade.
A deprimência e o desanimo tomam porém posse, quando os outros, privando de algum pouco do meu tempo, logo afirmam que me conhecem bem, sou transparente, previsível.
Quedo perplexo pela perspicácia desses génios capazes de penetrar a minha mente em corredores para mim inatingiveis.
A inveja, de mim tão arredia, faz da deixa a sua insidiosa entrada, espicaça-me em silencio, por sorte quebrado pelo murmúrio do leal discernimento.
Em duas penadas este deixa liquida a questão.
É a riqueza da diversidade. Entre os humanos pululam os que nada sabem de tudo o que sabem e ainda os de má intenção. Se eles não existissem, como distinguiriamos os outros ?
Constatada a ausência de minha falta, volta a serenidade ao meu reino só inquietada pela continuidade da procura, na tentativa, espero não gorada, de me encontrar antes que me perca de todo.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

(179) O tango

Anunciam na Ribeira tardes dançantes, lembrando as velhas academias de décadas atrás.
Não sei o que hoje ali se passa, nem sequer tipo de frequência ou som, mas posso especular na diferença, atendendo aos actuais padrões éticos e sociais e às liberdades ou libertinagens agora acrescidas, como queiram.
Antes, no tempo de "a menina dança ?", a coisa era castiça.
Castrados pelo atraso na chegada da internete, homens e mulheres podiam assegurar ali, além do prazer da própria dança, os seus convívios, encontros, enleios e paixões, por vezes com passadeira directa ao altar.
O som era então melódico, lento, com poucas alternâncias do chamado "abanar do capacete".
Intervalavam, para arrefecimento corporal, no clássico "damas ao bufete", olhos postos na gasosa ou pirolito a pagar pelo gentil cavalheiro.
O Amancio e a Rosalinda haviam-se conhecido numa dessas, talvez no salão dos Bombeiros Voluntários à Camilo Castelo Branco.
Respeitadores (?!) semana após semana, ali se enlaçavam, rolando na lentidão dos slows e tangos, preferindo o centro do salão na fuga evidente aos inquisidores olhares das matronas, acompanhantes das mais jovens, e também para, esquecido o pudor, encostarem os rostos e semicerrar olhos nas asas daquele fugaz sonho.
Então a musica era o somenos. Eles marcavam o ritmo.
E, numa dessas ocasiões, a uma maior pressão das mãos do Amancio nas costas da Rosalinda, esta tremelicando balbuciou:
--Ai senhor Amancio, senhor Amancio...
E o Amancio, de cabeça completamente perdida, replicou:
--Amansio a senhora. Eu já não posso!!
Acabaram por casar. De branco e flor de laranjeira. Se foram felizes não sei.
A ranchada de filhos decerto desconhece que a Cumparsita ou o Bejame mucho, tiveram grande influência na sua chegada à vida.

(178) A escolha

domingo, 7 de setembro de 2008

(177) Saia/calça

Tinha esperança, enquanto por cá ando, assistir à reconciliação do preconceito e da verdade.
Porque, para tal, seriam indispensáveis cedências mutuas, porventura não será provável e tão pouco possível.
Coabitando no palácio da vida, o preconceito sai e anda por aí tresloucado e valdevinos, dando-se a conhecer a todos, enquanto a verdade raramente se atreve a assomar à janela e com ela poucos privam ou tem ideia distorcida, tal a foto aqui apresentada.
Muitos a terão como interessante, contudo poucos perceberão o que retrata.
Na poeirenta, todavia arrumada, cinemateca da memória, ao rever filmes dos anos 50 ressalta a evidencia: a mulher não se permitia usar calças.
Puladas umas décadas, não é fácil encontrar mulher de saias, ressalvada a circunstancia, a temperatura e o conforto.
Óptimo, a razoabilidade ganhou espaço e acrescentou beneficio.
Resta porém uma questão por resolver.
A mulher usurpou a veste do homem e todos dizem: é moderna, é prática.
Se o homem usar vestimenta tida por feminina, na vã esperança dos óbvios benefícios, será de imediato tido como homossexual, travesti ou outra cena, só obviamente olhada benignamente em época carnavalesca e, mesmo aí, com o peso da preconceituosa malícia e despropositada exclusão das opções e liberdades dos outros.
Porque não abre o preconceito a porta do guarda fato, permitindo finalmente a plena igualdade entre os sexos ?
Ah ... é que na "verdade" parece não ser provável, nem tão pouco possível.

E aos crédulos vou dizer, a foto, embora não pareça, é duma abóbora.
Sei que é verdade. Foi a minha digital que me contou !
Não se podendo confiar na verdade, verdadeira, até se justifica o devaneio dos disparatados preconceitos.