domingo, 24 de dezembro de 2006

(67) ORAÇÕES

Caça. Uma das paixões do Januário
Era também muito crente, coisa que não casava.
Esses seus olhares para o alto, implicariam obviamente bondade e piedade, virtudes não compatíveis na matança por prazer.
Mas enfim, a cada qual sua moral e lá ia usufruindo do seu gozo.
O sonho, a meta, era a caça grossa.
E, do tanto sonhar ao realizar, foi uma penada.
Gastou o que tinha e não tinha e lá embarcou.
Dizimou. Sem dó nem piedade e por mera e vã glória.
E dizimou o que na gana lhe deu, até ao encontro com o leão.
Ali, em frente ao poder do rei, os nervos não aguentaram, largou armas e bagagem e, como o povo diz, cavou.
Correu, correu e o rei no seu encalço.
Âs tantas esparramou-se. Fechou os olhos perdido e, esquecida a sua frieza na matança, levantou os braços ao céu, soluçando e rogando:
Senhor, fazei que o animal seja crente.
A selva aquietou-se. Ainda a medo, abriu os olhos e o milagre estava à vista. A grande fera de rojo, patas dianteiras justapostas, erguia a grande cabeça enjubada e balbuciava.
Dissipado o pânico, sorriu o Januário. Afinal fora atendido !
Não era caso para jubilo e disso ficaria certo se os animais entendesse.
O leão orava sim, agradecia ao senhor aquela magnifica refeição.
Crente, mas também não piedoso.

Não surge fácil a tarefa de Deus, em face do contraditório dos rogos, tornando-se evidente que o sol quando nasce não é para todos.

sábado, 23 de dezembro de 2006

(66) VIRAR O BICO AO PREGO


Não consigo entender a passividade das formigas quando um pé humano, com intenção ou sem ela, pisa um dos seus carreiros.
São uns centos daqueles pequenos seres que ali são destruídos e, aparentemente, o facto não perturba a continuação da tarefa do ir e vir, ressalvada uma ligeira agitação.
Curioso do que pensam disso os outros humanos, resolvi sair à rua armado de micro e câmara, interpelando o passante, coisa muito em moda nos tempos que correm.
Cheguei à conclusão que a maioria age como as formigas. Regra geral não sabem, não tem opinião, não tem tempo e quejandos. O que importa é o constante ir e vir.
Emoções ? Nem por isso.
Foi giro e absorvente, porventura sem resultados práticos.
Caricaturo aqui duas ou três dessas entrevistas pelo seu destaque_
1. Encarou-me. Eh pá, não sei, talvez fosse útil nomear uma comissão para estudo do assunto e ... interpõe um sorriso alarve e exclama... Eh pá isto é para os apanhados!
2. Aprumou-se, ajeita o visual, e certamente na esperança de sair no noticiário das oito, desata num discurso complexo, falando, falando, e não dizendo nada. ( Onde é que eu já tinha visto isto ?)
3. Outro decerto me conhecia. Fitou-me, virou costas e rosnou “o gajo é doido”.
Fácil se torna retirar a conclusão que ninguém quer saber de ninguém e o sistema é tocar para a frente mesmo que a meta seja atrás.

Deu-me gozo e por tal vou preparar outra entrevista.
O assunto tem de ser explosivo.
Por exemplo perguntar o que pensam dum ser gigantesco que anda a passear na baixa pombalina, espezinhando com a sua patorra 430, humanos, viaturas, edifícios e dando piparotes aquelas belas estátuas, quando alça a perna para passar para lá do arco da Rua Augusta.
Aqui vai interessar sobretudo a cuscas, mirones e radicais que de certo vão arriscar para dar uma olhada e depois poder contar, aumentando... Se escaparem.
Olha, aquele tipo vestido de branco a dizer-me para não brincar com a câmara que é muita cara. Outro sem sensibilidade.
Que Deus me perdoe.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

(65) ESCUTANDO



É proposto reflectir sobre a influencia que possa ter tido em mim o atendimento de prevenção do suicídio, anónimo, solitário e pontual em que durante anos escutei a angustia, o desespero e a solidão dos outros.
Quando iniciei essa escuta, há muito andava eu prenhe de raiva e intolerância. Duas figuras um tanto mesquinhas porém garantes da continuação da vida, mesmo quando tudo indica o contrário. Magnificas substitutas do desânimo e da apatia, estas por certo levando a outros caminhos.
Creio que nunca fui menino e daí sempre considerei a vida tarefa árdua. O fardo é difícil de transportar na subida e, por vezes, também na descida, ao contrário do que dizem dos santos.
O intolerante, por demasiado assertivo e pleno de disciplina, não é de todo bem visto. Assemelha-se ao ditador.
Porém nele coabitam a convicção e a justiça.
Quando critica os outros, exige o dobro de si.
Já a raiva é menos nobre, tem outra cor.
É aversão, falta de crença, não aceitação, contrariedade. O “porquê eu ?”.
Pela via errada, é luta contra a soberana ditadura da natureza.
Lá me integrei no tal de atendimento. Anos pesados que foram !
Na mistura de todas aquelas cores de sofrimento, mergulhei as minhas emoções e dei o braço à amargura dos outros.
Notei existirem dores mais fortes que as minhas ou pior suportadas, atingindo por vezes o desejo expresso de partir.
Acabei também por escutar com todos os sentidos, aquelas vozes sem rosto, no grito dos seus pesares.
Partilha ? Não, não creio ! Foi por inteiro !
Pacifiquei a alma. Serenei.
No reino das solidões consegui situar a minha.
Lavei a raiva, aceitando a dos outros.
Aos outros aceito e compreendo, e até mantenho amizade com seres com vidas, sentires e condutas diferentes das minhas, na convicção de que não sou dono da verdade, nem sequer sei bem onde ela mora.
Intolerante, ainda sou, comigo próprio. Exijo-me.
Um destes dias irei perdoar-me! Prometo !

E assim a vida me mostrou que, e apesar de, sou um privilegiado.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

(64) IMPASSE







SER SEU AMANTE, TENTEI, NÃO CONSEGUI.

SER SEU AMIGO, NÃO DEIXOU.

MORRI !

sábado, 2 de dezembro de 2006

(63) A DÚVIDA



Tenho feito progressos na aceitação da loucura e sua dimensão.
Falo da minha claro. Embora reconheça que todos somos um tanto, dependendo sempre da opinião do outro e do próprio conceito.
Os passos foram temer, compreender, aceitar.
Tenho por isso de repetir algo que escrevi e cujo sentimento perdura:

Se me fosse permitido separar a humanidade em duas partes, os loucos e os outros, e, por modéstia, me colocasse no sector dos outros, restar-me-ia a angústia de não saber o que eles sabem que eu não sei.

sábado, 18 de novembro de 2006

(62) A IMAGEM



Acordei esta manhã na disposição habitual.
Sabem quando se acorda não enxergando, nem a roupa nem justificação para mais um dia de luta ? Sabem ! Evitam-me o fastio de explicar, pois assim foi que me arrastei ao quarto de banho.
Ali mora o mais confidente dos meus espelhos, aquele com quem mantenho maior intimidade e no fundo me olha sem os atavios e adereços que adoçam a figura e o grupo social impõe.
Uso com ele de certa sacanice, confesso, pois, para obter respostas positivas, lhe troco as voltas. É assim que diariamente e após mimo cá, mimo lá, lhe coloco a pergunta dos contos de embalar.
Espelho meu, espelho meu, diz-me que não há tipo tão feio como eu.
Tudo começou a correr mal quando ele me quis gozar no intuito evidente de azedar o dia e respondeu mordaz:
“mas não, mas não... há por aí tipos bem piores do que tu “
Tanto desatino irritou-me e atirei-lhe a saboneteira, estilhaçando-o, e ele, mudo, devolveu-me uma imagem horrível.
Boa. Era mesmo o mais feio.
Já tranquilo sentei-me na sanita, e, cumprido rapidamente o objectivo, saltei para o duche e até cantarolei.
Já tinha que fazer. Ia comprar um espelho.

(61) AMARELO

Sem me captar grande interesse, decorria a reunião em normalidade, não fora a chata da sujeita que me coube por vizinha. Tagarela... Tagarela por inteiro...
E pelas tantas e pelo desinteresse do paleio, desliguei, deixando a sujeita em continuado monólogo.
Voltei a ligar quando ela, no recheio duma qualquer frase, afirmou detestar todos aqueles tipos vermelhos que nos rodeavam.
Aí, não resisti e na tentativa de a aquietar, sem saber o que o feito me reservava, ironicamente exclamei:
“É verdade, ainda bem que você é azul”
A resposta veio embrulhada num ramo de bemmequeres:
“Notou ? Foi por isso que me sentei junto a si, adoro o seu azul celeste.”
A tipa, além de tagarela era indubitavelmente daltónica e em definitivo calou-me.
Aterrorizado, posso dizer, levantei-me e saí em silencio de sorrido amarelo.
Cá fora corri a um espelho e dei graças, não havia manchas verdes.
Porque sim, eu sou amarelo e detesto estas reuniões de vermelhos e azuis.
Felizmente ela não me tocou !

(60) JUSTIFICAÇÃO


Se vamos definir o louco por aquele que perdeu a razão,
teremos de definir o estado psicológico de quem julga a razão.
Por mim diria que somos razoavelmente razoáveis entre alguns momentos de loucura.
E daqui eu não saber de que lado me colocam.
Estou num deles e, certamente, viajo para o outro.
Por força vou equipado (a tal bússola, relógio, máquina fotográfica, gravador, cadernos de apontamentos, etc etc e até mesmo o passaporte, pois a loucura razoável não é exclusivo dos países da CEE).
E tudo isto porquê ?
Julgo-me um tipo porreirinho e no regresso, se for caso disso, poderei com provas publicitar o deserto ou o oásis, conforme seja o caso, ajudando os indecisos.
Previdente e sobretudo disciplinado. Mas ainda mais curioso na matéria.

(59) DO OUTRO LADO DA LOUCURA

Durante vários anos foi diário o meu contacto com o Júlio de Matos.
Vejo pelos sorrisos que isto não começa bem. Não sejam preconceituosos.
O caso é que vivia ali perto num alto sétimo andar, abrangendo a paisagem daquele belo parque da cidade e, na rua, quase obrigatório era o caminhar junto ao longo gradeamento.
Numa dessas ocasiões, foi a minha atenção activada por um pst-pst
Pelas grades espreitava um rosto, entre curioso e apreensivo, de olho brilhante e ar inteligente, prenhe de cumplicidade.
Ao meu bom dia, correspondeu e perguntou:
"Sabe por acaso quantos são ai dentro ?"
A questão, por dúbia, obrigou-me a alguma reflexão e a responder na verdade, a minha:
"Não sei, talvez muitos"
Segui, de novo acompanhado pela frustração da minha incapacidade de voar

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

(58) SOLIDÃO... QUE SOLIDÃO ?






DIZ O MUNDANO: É O INFERNO
DIZ O ANACORETA: É O PARAÍSO

Aceitemos estas e todas aquelas que preenchem o leque intermédio, das cores brilhantes aos cinzas mais negros.
Pela condição humana e após o empurrão uterino, estamos sós e sem preparação para o percurso.
Uns herdam a dádiva de serem queridos, desejados e amados, outros não tanto.
Nessa caminhada de pé posto que é a vida, cada um vai colhendo o tipo de solidão que lhe cabe, senão por escolha, no mínimo por atitude, esquecendo que neste teatro o cenário é essencialmente de espelhos a reflectir a prática da sua postura.
Não sinto a solidão como um malefício, antes quase uma opção, carecendo duma gestão espiritual serena, abrindo brechas onde caibam sentimentos que sem os outros não obtemos.
Reconhecendo a presença indestrutível da solidão há que saber viver com ela, única forma de adoçar os seus efeitos.

(57) O ADEUS À LUTA

Ao cabo de todos estes textos perdi-me nos meandros desta luta e não atino se venceu a solidão, a vontade de estar só ou simplesmente houve acordo.

Sem saber assim fico, se estou só por coacção ou opção.

De qualquer modo, acomodei-me e sentido não faria continuar a bater em ferro frio.

Vou em cruzada a outras lutas.
Nos campos de batalha dos preconceitos e loucura
sem lança, sem cavalo e sem aio, conto que finalmente esmoreçam estes meus devaneios.
ATÉ

terça-feira, 7 de novembro de 2006

(56) O CHILREIO


Quando passei sob o velho e imenso plátano, corria manso o Outono e o Sol, em fim de dia, entre ensonado e teimoso, tentava sacudir os aconchegantes farrapos de nuvens à sua volta.
O chilreio cativou-me. Não resisti e, contra natura, resolvi cobrar a minha quota de cusca, tentando perceber o que por ali se dizia.
As aves chegavam aos bandos, regressadas da grande aventura do dia corrido.
Procuravam poiso para a noite próxima e na excitação da chegada e do convívio, gritavam em chilreio as aventuras das últimas horas, vividas em intensidade na procura e conquista do verme, nos voos picados, o espadanar nos charcos e os namoros. Não queriam de todo ser ouvidas, queriam apenas ouvir-se para acreditar na realidade do tempo vivido.
E cada novo bando era chilreio renovado e aumentado.
Fechei os olhos. Tão semelhantes as encontrei aos humanos.
Na ânsia dos seus relatos. Chilreavam em uníssono e muito embora ouvissem os outros, seguramente não os escutavam, satisfazendo-se naquela afirmação do eu... eu... eu...
Algum mérito eu credito aquelas aves na comparação atrás feita.
O chilrear foi melódico e o silencio profundo, logo logo que o Sol se tapou.
Com os homens é raro.

sexta-feira, 3 de novembro de 2006

(55) PARA SEMPRE


Os outros para mim
Passam ao largo
Roçam-me ou
Atravessam-me.
Neste último caso, cativam-me à eternidade
.

quinta-feira, 2 de novembro de 2006

(54) CUIDADO NÃO APONTE


Um favor eu quero pedir aos poucos que me visitam:
Não entendam dos meus textos ou das suas entrelinhas,
fácil critica de poleiro ou afirmação gratuita
O relato do que sinto ou me é dado observar,
destinatário não tem,
sendo tão e tão somente o desejo de mudar.
Não esqueço que esse gesto, do indicador esticado,
deixa ali aqueles três dedos que para mim estão a apontar.

(53) A RECEITA



Os meus momentos de felicidade tem sido lampejos.
Suponho por isso legitimo ansiar pela plenitude.
Numa dessas revistecas que tudo solucionam, era prometida a conquista da felicidade em dez passos, com o aval de não sei quantos cientistas e testemunho de outros tantos supostamente felizes e decerto também bem pagos.
Céptico por natureza, não deixo porém de estar aberto à mudança.
Esta atitude e a aparente simplicidade das dez tomas do milagroso milongo, umas diárias, outras semanais, embarcaram-me na experiência, entrando desde logo nas tomas diárias.
As duas primeiras seriam canja.
1) Cortar metade do tempo a visionar TV
Tirei a ficha da tomada. Dada a qualidade da programação, estava a usar para adormecer. Cá me arranjarei e, se necessitar, tomo um soporífero.
2) Tratar duma planta
Isto adoro. O problema é que trato de muitas e fico receoso do perigo da toma em excesso, mas esperançoso que daí mal não venha
3) Dizer olá a um desconhecido
Teria de sair. Sem hesitar, aperaltei-me e, todo janota contra o meu uso, desci as escadas.
Cruzei-me na porta com o tal desconhecido. Franqueei a passagem e disse OLÁ.
A primeira decepção. O tipo, carranca afivelada, olhou de soslaio, passou. Não correspondeu, nem agradeceu a gentileza.
Sem perca de tempo, saí e deparei com uma mulher ainda jovem. OLÁ, disse eu, quando se aproximou. Não olhou, levantou a cabeça e prosseguiu, certamente convencida que eu pretendia um engate.
A adrenalina começou a borbulhar e fiquei especado.
Entretanto aproximava-se uma velhinha com ar seráfico. Afivelei o meu sorriso às comissuras, sem receio de mostrar os dentes que já não são meus e, na aproximação, gorgeei o meu melhor dos OLÁS.
Boa. Parou. Fitou-me compadecida e disse:
Tenha paciência. Não tenho trocado.

Não tomo mais nada
Desisto de ser feliz por inteiro, contentar-me-ei com os lampejos. Dependendo de terceiros, o grau de dificuldade sobe em flecha.
No entanto sem responsabilidade nem garantia de êxito, estou ao dispor para indicar os restantes sete passos.
Pode dar-se o caso sejam mais “felizes” do que eu.

(52) O ECLIPSE

Estou com problema sério.
Ao rever os textos, supostamente por mim escritos, reconheço o tema e a ideia, não a forma. Olho com espanto o escrito daquele estranho a trabalhar a minha ideia.
O que quer dizer que, se fizesse daquilo folha branca e voltasse a pintá-la, seria com outras cores.
Acham grave ? Devo ir às medicinas ? Nada de sorrisos, ajudem-me.
Em principio pensei fosse traição da memória, aceitável e lógica causa dos meus 525 anos estelares.
Pensei depois talvez resultasse do facto de escrever, como falo, sendo razoável que as palavras fossem levadas pelo vento, pois na maioria não passam de conversa.
À cautela, homem prevenido vale por dois, e receando seja do chip memória, vou preparando justificação para a desgraça.
Já que ela nunca vem só, venha no menos acompanhada de algum optimismo.
Logo uma luz se acendeu.
No mínimo ganho duas criticas ao escrito. No inicio a autocrítica, sendo a minha pouco benévola, e mais tarde, em face do irreconhecível documento, a critica dum terceiro, eu próprio, esta à evidencia mais isenta.
Outra vantagem se me deparou de imediato: aos que nos magoam e perdoamos, acresceria o consolo de os esquecer, facto sem ocorrência na memória plena.
O verdadeiro problema é que não. Não é do diacho da memória.
Vejam só, jamais me esqueci do número atribuído ao meu Pai na corporação de que fazia parte, e não me venham com tretas de memória recente e passada, pois o mesmo me acontece em casos de ontem e anteontem. Basta que algo me toque... e tocado viro outro.
Porque será então ? O texto está compreensível ?
Acham valerá a pena escrever tudo isto de novo ?

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

(51) A CRISE





O puto parece preocupado, agressivo ou chateado ? Não
Para o futuro garantir, apenas presta atenção ao jornal que tem na mão.
Na escola já pouco aprende, basta ler ou soletrar e até cem saber contar
No desenho é a estrelinha e depois é acertar.
Lá em casa ? É mais do mesmo.
A mãe, o pai, o irmão e pensaram, vejam bem, dar ao gato essa instrução (qu’ele até vai arranhando !).
Grandes descobridores, antigos donos dos mares e de meio mundo também, ficou daí a mania que o trabalho é fantasia e coisa que não convém.
E assim a navegar, dou por certo irmos ao fundo.
Mas já sendo campeões, pois com a França lideramos o gasto no euromilhões, não interessa mais a crise, se há dinheiro para comer, nem tão pouco para vestir, o que interessa, podem crer:
É apostar, apostar,
alguém há-de pagar
e o que der é para curtir

(50) (CON) VENCIDO PELO CANSAÇO

Da minha odisseia, mesmo quem já foi chateado, apenas faz pálida ideia.
Tudo começou naquele fim de dia de Outono... com licença, não vou citar ... a brisa, o pôr do sol e outros adereços, vou directo ao que interessa.
Pelas 20 horas, toca o telefone e atendo.
Uma delicada voz de mulher pede-me para chamar a Joana.
Por bem ou por mal, estava só.
Disso fiz informação à senhora que se desculpou e foi-se.
Pelas nove, novo toque.
Era um puto que me pedia para chamar a Tia Joana.
Ligeiramente intrigado, esclareci o engano.
Uma hora mais tarde era um sujeito de grossa voz.
Pedia para chamar a filha, a Joana.
A minha panela que em lume branco já estava, passou à fervura e a tampa saltou.
Depois de alguma troca de mimos o sujeito mandou-me à merda.
Eu desliguei... e não fui !
Não digo mais nada.
A partir daí e precisamente de hora a hora todos queriam falar com a Joana.
Não discuti mais.
Às oito da manhã, completamente derreado, olhos encovados e a bocejar, resolvi ir encostar a cabeça na palha, um pouco em sobressalto.
De solavanco em solavanco lá desci o penhasco do sono e entreguei-me profundamente...
Estava nesse vale da paz e um som estridente e repetido, acordou-me.
Era a campainha da porta e claro, eram nove horas.
Vesti o roupão e fui abrir.
Vinha ensonado e fiquei extasiado.
Deparei com um sonho de mulher, leve, sem pinturas ou mascaras, irradiando paz e frescura, só faltando abrir-lhe a cabeça para ver se também seria assim por dentro.
Olhou-me sorridente e disse:
Sou a Joana, a sua nova vizinha, peço desculpa de incomodar tão cedo.
Vinha ver se deixaram algum recado para mim.
Sem saber o que fazer, mandei entrar.

Ai, esta memória, como relembrei isso agora ? Tantos anos passaram e... raios, lá está o telefone outra vez:

Joana, atende aí!

É claro que os preconceituosos estão já a pensar:

“melhor teria sido que ele fosse à merda como o mandaram”

Mas não, enganam-se. E além disso poupamos uma renda de casa.

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

(49) O MISTÉRIO

AMAR É CONTIGO ESTAR
ESQUECER QUE SOMOS DOIS
ESTAR SÓ E TER

(48) O DESABAFO

Desta vez o sujeito que coabita comigo saiu da linha.
Daí resultará uma briga e tanto.
De resto, e consultando os meus arquivos, a harmonia, se existiu, limitou-se à infância, tempo em que já mostrava aquele seu jeito de ser.
Ultrapassada essa época própria da inocente candura, iniciou o seu rosário de acusações à minha forma de estar, imputando-me o facto de nunca termos sido meninos de verdade.
No fundo somos um do outro e até penso que nos completamos, talvez até pela relação de tempestade e bonança e do seu vice versa.

Nunca diria que a relação seja de amor-ódio, antes de amor-dor, de que ele, inexplicavelmente, parece tirar prazer.
Não faria sentido a vida de um sem o outro e até aceito as diferenças.
São sempre vantajosas na temperança dos actos. Conversamos.
Somos Balança, supostamente equilibrados, disciplinados e outros ...ados.
Por tal não cai bem, o abuso de que ele faz constante uso. Garantes do signo ficam apenas os meus actos.
As tarefas são concretas: a ele cabe seduzir e cativar, a mim manter e sustentar. Deste meu trabalho indispensável à continuidade, obviamente não transparece o charme.
Semelhança a esta aridez, só encontro no trabalho anónimo das lidas de casa, tanta canseira feita e desfeita, nunca concluída nem reconhecida.
Claro não estou a puxar a brasa à minha sardinha. Só queria um pouco mais de respeito e reconhecimento.
Gostaria que, deitado eu, para repousar e cuidar desta nossa morada, não viesse dos seus devaneios, donde por vezes regressa tantas da noite, e inopinadamente, sem nada me contar ou discutir essas aventuras virtuais, me obriga a pegar na caneta ou a digitar directo ao PC, as extravagancias imaginadas nos seus delírios.
Gostaria reconhecesse não poder satisfazer esse vicio sem mim... retirando arrogância, intolerância, petulância ou outras ...âncias de que é tão fecundo.

Sim. Mas isto já vai longo e a causa do desabafo por esclarecer.
Vamos lá.
Sorridente, simpático, mordaz, dizia que eu, bastas vezes no passado, “nos” obrigara a vestir a pele do animal (e isto no sentido pejorativo, não tendo o burro culpa, antes havia de merecer reconhecimento dos (des)humanos que o escravizam e exploram).
Ferido, amesquinhado, contestei, sem grande convicção, rebatendo o exagero.
Levou-me lá ao fundo a rever algumas cenas das fitas do nosso comum passado noutro espaço temporal, em que também ele próprio me dava mais facilidades.
Tinha razão. Estava demonstrado.
Ele sabia, porém, ter sido a necessidade da continuidade e no contexto de então.
Perdi. Foi cruel, nem mostrou compaixão.
Valerá a pena entrar na senda da mesquinha vingança e deixar de lhe passar textos ?
Meditarei...e vou ter em conta a solidão. Não vivo sem ele.

sábado, 21 de outubro de 2006

(47) NO REINO DA MENTE




NO MARAVILHOSO REINO DO FAZ DE CONTA
NEM SEMPRE VENCEM OS BONS
Reza a lenda que há muitos, muitos séculos, um velho Génio se passeava na Galáxia, voando no seu tapete e resolveu sacudi-lo. Duas ou três palmadas e salpicou aquela zona de inúmeras partículas de poeira, seguindo o seu caminho sem se aperceber do caos que havia gerado.

Por ali passou outro Génio que andava sempre a descobrir coisas e até usava uns aparelhos, depois chamados telescópios. Notando que as partículas de pó tinham uma cabeça, tronco e membros, logo ali resolveu chamá-las de humanóides, mais tarde humanos (para facilitar), começando a declarar aos quatro ventos que descobrira a HUMANIDADE.

Aquilo não era coisa de somenos e ao examinar as cabeças em pormenor, verificou que, muito embora algumas fossem ocas ou com recheio sem grande significado, quase todas incluíam um pequeno planeta e esse sim fervilhando de complicada vida. Era uma espécie de labirinto onde coabitavam milhares de pequenos seres, parecendo gnomos e com nomes engraçados (BONDADE, MALDADE, INVEJA, ÓDIO, COBIÇA, TOLERÂNCIA, entre muitos, mais ou menos importantes, e me perdoem não os descrever mas para tal é insuficiente o tempo de vida que me resta ).

Cada criatura era conhecida pela característica mais marcante da sua personalidade e é bom de entender que, existindo tanta acção e reacção, o equilíbrio só seria obtido por alguém com mão de ferro e de facto assim sucedia.

A rainha CONSCIÊNCIA e a sua conselheira RAZÃO, lá iam mantendo estável o nível da SAÚDE MENTAL, controlando aquele povo um pouco desordenado, indisciplinado e desobediente.

Claro que havia um Rei, o INCONSCIENTE! Muito metido consigo, poucos se lembravam de o ter visto, sendo certo que só surgia em determinadas ocasiões e, mesmo nessas, não para agrado de todos.

Dizia-se passar o seu tempo a organizar extensos arquivos secretos, ajudado pelo SONHO, personagem estranho e que aproveitava as ocasiões em que a Rainha mandava o pagem SONO apagar as luzes e declarar descanso geral, para deambular nos labirintos, acompanhado de brincalhonas, principalmente a FANTASIA, e servindo-se abusivamente do arquivo secreto.

A Rainha que também tinha os seus agentes, sabia destas escapadelas mas fechava os olhos, visto que alguns PSIQUES (já vamos saber quem eram) a haviam convencido que o SONHO até seria benéfico para a saúde.

Porém, ladino e descuidado que era o SONHO, perdia por vezes o controlo das brincadeiras, logo surgindo o terrível PESADELO, esse sim provocando alarme geral e despertando todo o planeta.

A vida prosseguiria de forma razoável no reino da MENTE, se numa densa floresta não vivessem um mau bruxo, o SOFRIMENTO, amigo, unha com carne, de duas fadas más, a DOR e a MORTE.

Malévolos que eram e sabendo das constantes intervenções da CULPA e do REMORSO, enviavam os seus emissários, TERROR , PÂNICO, DOENÇA, LOUCURA e SUICÍDIO, aproveitando a fragilidade de muitas daquelas criaturas para se intrometerem no seu seio. Alguns estoicamente suportavam os seus ataques, SERENIDADE, HUMILDADE, ACEITAÇÃO entre outros. Muitos mais como DESESPERO, ANGUSTIA, SOLIDÃO, LUTO, por menor discernimento, debilitavam-se facilmente e com frequência sucumbiam. Nessa confusão alguns estavam doentes sem saber e só os outros o percebiam, altura para a insidiosa DÚVIDA questionar a sua própria sanidade.

Para obstar a estas dificuldades e tentar manter a saúde da MENTE em níveis sofríveis, resolveu a Rainha criar um grupo de trabalho constituído por alguns supostamente ainda não doentes, a quem mandou ministrar ensino especial e chamou de PSIQUES. A tarefa destes especialistas da MENTE era árdua e o êxito nem sempre assegurado, dependendo da fixação que os doentes tinham nos bruxos e nas fadas e na sua capacidade de lhes resistir. Em alguns casos tratavam deles só com conversas, tentando, sem o dar a perceber, encontrassem em si mesmo as qualidades ideais para evitar a ruptura, noutros tinham de recorrer a medicinas que, não garantindo a cura absoluta, amenizavam a forma como o SOFRIMENTO, a DOR, a MORTE e as diatribes dos seus emissários eram percebidos.

Certos destes PSIQUES tinham até autorização especial da Rainha para convocar o INCONSCIENTE rei, e, quando o conseguiam, apertavam com ele de forma a investigarem alguns dos seus arquivos mais secretos e, por vezes, obtinham resultados satisfatórios.

Em desespero, e lançando mão de todos os recursos, criou também a Rainha outro grupo os VOLUNTÁRIOS que, embora não fossem técnicos e até não percebessem muito bem como o conseguiam, lá iam ajudando algumas das criaturas tão-somente porque as aceitavam como eram.

Não quero deixar de fazer referência a uma distinta senhora, a AUTO-ESTIMA, aia da Rainha. Todos os cronistas são unânimes em afirmar que por vezes irradiava tal luz que a MENTE parecia quase uma estrela o que era benéfico para a saúde mental.

Continuaria o meu relato, fazendo até alguns desenhos para melhor compreensão! Estou contudo condicionado no espaço/tempo e já me fazem sinal para concluir. O estilo clássico não vence neste caso e só poderei escrever: “e viveram muito infelizes para sempre...”, epílogo confirmado por notícias do século trinta e um.

Até à próxima! Vão ali com ar risonho a ESPERANÇA e a FELICIDADE que vou tentar acompanhar...

terça-feira, 17 de outubro de 2006

(46) A CULPA




Senhora deveras estranha. Sem grandes paleios, contudo insidiosa.
Não sendo bruxo, quase poderia afirmar, embora não o faça, que todos a conhecem. Alguns demasiado, tipo unha com carne.
A maioria quando se cruzam, faz vista grossa, vira o rosto, assobia, na tentativa gorada de passar despercebida. Obviamente não assumem.
A Culpa sorri e continua o caminho, certa de não ter sido esquecida.
Tem ela duas filhas, Culpa directa e outra ligeiramente mais benévola, Culpa por omissão.
De modos diferentes ambas sabem infligir o respectivo sofrimento, não fossem elas descendentes da mestra.
De verdade a família não trabalha só, utilizam ainda a Duvida que se ocupa da manutenção das causas.
A Duvida é um placebo, dá alguma esperança, mas o alivio é ilusório, mantendo os seres na amargura do desconhecimento de saber se estava certo o que fizeram ou o que não fizeram.

E o problema parece não ter solução

Moral da história:
Enquanto o homem não se aceitar como ser frágil, passível de errar nas suas decisões, o equilíbrio manter-se-à instável.

SEM PRECONCEITO: é mera circunstancia o facto das intervenientes, as más da cena, serem todas do sexo forte.

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

(45) OS CUSCAS




Haver gente interessada na vida de quem não conhece, é estranho, mas acontece.
Se lhes caímos na alçada, vamos ficar controlados, horários, emprego, refeições, tempo de estar deitados.
Coisas de cama, então, é o delírio total. Gozam de tal maneira que lhes pode fazer mal.
Escutas sofisticadas, perseguições animadas.
Espreitam pela fechadura se a porta não está aberta.
Para que lhes serve ? Não sei. É doença pela certa.
Talvez nuns a frustração de não saber imitar.
Noutros a distracção, em vez d'irem trabalhar.
Alguns ainda talvez para terem de contar.
Para todos é de certo estranha forma de gozar.
Este trabalho de espia, pese embora degradante, admissível seria se lhes garantisse o pão. Mas não !
Impossíveis de evitar, deixemos de lhes ligar.

sábado, 14 de outubro de 2006

(44) A MEMÓRIA






Não me recordo o que comi ontem !

A todos acontece.

Mas também estamos aqui e, num piscar de olhos, estamos lá, onde quer que seja, a gozar ou a chorar momentos antes vividos. Não há tempos, não há distancias. Nem há agência de viagens que garanta este serviço.
Pois. É uma capacidade maravilha de que dispomos e alguns menosprezam.
Os aviões também tem, suponho menos sofisticada e não tanto sigilosa. Pode ser lida por estranhos na descoberta dos mistérios dos acidentes.
Para nós é uma caixinha onde vamos ciosamente arquivando o filme da nossa vida, sucessos e insucessos, alegrias e tristezas, dor e prazer. Guarda o bom e o mau e estamos a nu.
Cada um tem a sua. Ordena e gere o arquivo como melhor entende.
Gosto da minha. Palavra ! Estou frequentemente a espreitar, com o cuidado devido, não vá qualquer rabanada de vento prejudicar a arrumação.
Tenho uma memória mais espacial do que temporal.
Traduzindo: a cena para mim é ali mesmo viva e vivida, não interessando o quando mas onde.
Em momentos menos criativos em que o mundo resolve colocar os pés nas nossas costas e a solução mais óbvia é sentar ao canto e deixar passar a crise, a caixinha e o seu conteúdo são bastante úteis e cooperantes.
Por crer que a memória é um tesouro lhes peço que evitem perdê-la.
Poderia restar o consolo dela servir a alguém. Mas não, é pessoal e intransmissível. Se alguém a encontrar, de nada lhe servirá..
Além disso é essencial. É a nossa identidade, o nosso passado.
Virtual que seja, não há outra pessoa capaz de o reconstituir, nem por aproximação.
Existe outro perigo na perca.
Há por aí uns sábios doutores que jamais acreditam que tenhamos perdido a memória por descuido. Dizem ser doença e para a identificar logo aplicam aqueles palavrões que de modo algum desejamos nos digam respeito. Senilidade... ou pior, senilidade precoce ou ainda outros e além disso estrangeiros.
Bem... Se isto serviu de algo, contente eu fico, e, sendo já passado, vou colocar o texto na caixinha com a nota de favoritos.
Será bom sinal que se vão lembrando de mim...

(43) CONVERSAS DE VIDA E MORTE

Numa dessas excursões gratuitas em volta do Sol que diariamente a Terra nos oferece, podemos observar um leque de maravilhas.

Tudo o que nos rodeia e os seres nossos contemporâneos, são, na realidade, geniais obras-primas.

Extasio mas o artista confunde-me! A confusão é legitima na medida em que não me é fácil compreender um criador, supremo artista, destruindo obras tão perfeitas para criar de novo, e recuso o argumento duma lenta evolução.

Porquê o nasces, vives e morres ? A forma será diversa; a sina a mesma:

NASCES entre milhões de hipóteses para que algumas resultem e entras na cadeia alimentar;
VIVES dependendo dos teus contemporâneos e em regra devorando-os;
MORRES continuando na cadeia alimentar.

E, como se não bastasse, cria o animal humano, o mais animal de todos, concedendo-lhe favores e ferramentas que o fazem supor superior, quando na essência se reduz à mesma condição e tem por acréscimo a sensibilidade que lhe permite elaborar os sentimentos e emoções, e ainda a possibilidade de, por vontade própria, interromper o ciclo imposto, o que nos outros animais, e sem prova cientifica, parece acontecer apenas numa certa espécie de baleia e em algumas aves que ingerem sementes venenosas.

É entre esse misto de beleza e dor que balança o homem e os seus valores, superando uns a condição, outros não. Destes, grande parte, sem saber que nas suas ferramentas tem a chave dos próprios problemas, tenta que o outro compreenda o seu sofrimento, aproxima-se, não tanto para que lhe indiquem o caminho, mais para que aceitem e compreendam a sua natureza de seres em crise e, se tal não acontece, o ponto de ruptura é atingido e a saída do ciclo da vida pode surgir como solução única.

A ajuda atempada, em resposta ao seu grito, evita o sedimento de crises sucessivas mal resolvidas que os poderão conduzir à intenção suicidária e sua concretização.

Muitos fomos ao fundo do nosso poço e muitos saímos, sempre com feridas por sarar. Poderia fazer aqui o relato duma viagem ao fundo do meu e não o faço por razões várias, algumas capitais.
Receio encontrar lá em baixo a serenidade que me acomode, sem regresso, e teria ainda de me despir demasiado e o frio vai de rigor.

Além disso, se aqui chegaram, já leram 397 palavras e não quero abusar da vossa paciência.
ATÉ

quinta-feira, 12 de outubro de 2006

(42) BLÁ-BLÁ






É habitual.
Acontece bastas vezes em baptizado, casamento ou funeral à conversa se meterem pessoas que nunca vimos e ali estão de circunstancia.
Este tipo de intruso, no seio de tanta gente, nem notado seria se não fora tanto abuso.
Fala pelos cotovelos, do que sabe e que não sabe, e não se dá ao recato, conta histórias sem interesse, e por vezes anedotas, sem respeito pelo acto.
Para que fique avisado, aqui lhe deixo o recado, fique atento. É sempre bom duvidar daquilo que muitos afirmam e voltam a repisar.
Se nos comes e bebes, trincando perna de frango, da conversa faz despesa, bastas vezes afirmando:
-Gosto muito de animais.
Não se exalte, não conteste, pode ser não fale mais.
Se porventura insistir no presunçoso discurso, pergunte mas sem calor:
-Gosta deles por amor ou é somente o sabor ?
Se ofendido e ofensivo, ele de todo se abespinha, não terá outro remédio e volte a perguntar:
-Oh homem então que mal lhe fez a galinha ?

Moral da história:
Tenhamos cuidado ao generalizar que gostamos de animais pois, lembrando a servidão, teremos de dizer quais.
SEM PRECONCEITO

sábado, 7 de outubro de 2006

(41) O LABIRINTO


O ENCONTRO É FÁCIL E O DESENCONTRO FACILITADO.
PREFIRO LABIRINTOS COM MAIOR NÍVEL DE DIFICULDADE
.

(40) OS SÁBIOS

Privei com dois cientistas tão diferentes e tão semelhantes que não resisto a recordá-los.
Ambos ambiciosos; ambos tristes; ambos esqueciam ser mortais.
Um julgava saber tudo.
Ansioso, continuava mergulhado na amargura da busca do conhecimento.
O outro julgava nada saber.
A ânsia era semelhante.
Nessa busca incessante devoravam sofregamente toda a fruta do pomar da vida, ignorando o valor do singelo bago de uva quando lentamente saboreado.
Assim passeavam-se perto da vida sem a roçar, impossibilitando a absorção de qualquer centelha de felicidade.
Supunham andar de olhos bem abertos e não viam na realidade o essencial.
Sabiam descrever cientificamente a árvore, sem usufruir da frescura da sua sombra ou escutar os segredos recontados pelas folhas e ramos à passagem da brisa e até o piar da ave jovem esfomeada no seu ninho. Não conheciam tão pouco o grito de dor quando os lenhadores a abatem a golpes de machado e, talvez envergonhados do acto, tentam abafar exclamando “madeira” (timber), a reconhecer ao gigante, mesmo ferido de morte, a capacidade de luta.
Descreviam cientificamente as formigas e os homens, não descortinando afinal que os homens se deslocam como as formigas numa correria em todas as direcções, para cá e para lá. Só que as formigas sabem para onde vão e os homens nem tanto. Além disso elas deixam o caminho limpo e os homens, por sistema, conspurcam-no
Compadeci-me, como sempre me compadeço quando deparo com alguém que não consegue criar laços. Os laços são essenciais na vida, ténues ou mal apertados que sejam.
Sempre me fizeram falta, cultivo-os quando vale a pena. Amparam a minha solidão. Não passo sem eles. Mas para criar laços é necessário saber cativar (carinho e humildade).
Atenuar aquela situação seria trabalho para a Virtude. Diz o povo que é no meio que ela está.
Perguntei-lhes se a aceitavam. Foram orgulhosos, rejeitaram. Ficaram sós.
Afinal eram néscios e, como mortais que são, um dia sairão sem as alegrias da partilha

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

(38) O DIA DA DULCE


A ESSE SER BONITO QUE É A DÊDÊ !
Neste dia, com tanto significado para ti, tenho estado a magicar quem merece os parabéns.
Primeiro pensei na tua Mãe que decerto bem os merece por ter gerado um ser como tu.
Pensei depois que só isso não seria totalmente justo. . Há em ti muito esforço para seres o que conseguiste ser com aquilo que de ti fizeram. E também pela tua generosa dádiva aos outros.
Tenho de resolver, e sendo o mérito comum, vai um grande abraço para tua Mãe e, para ti, os três beijinhos do costume do teu amigo de sempre
.

quarta-feira, 27 de setembro de 2006

(37) A MAÇÃ


TENHO DE ME QUESTIONAR:
A MAÇÃ ORIGINAL JÁ TERA LAGARTA ?

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

(36) MOSCA II


Sim, este é o meu olho !
Hoje, dia de saída, não estou no emaranhado pesadelo, mudado em grande mosca e na ânsia de voar além das grades.
E, com agrado e sem menosprezo pelo magnifico olho da mosca, vou apontar-lhe um senão.
Da paleta universal não retirou o matiz e, o repetir das imagens, não garante vantagens.
Se fosse mosca, calcula, nem se me dá na lembrança, quando olhasse para ti, meu amor, a ver-te sem cor, repetida, como névoa esbatida de quem anda fugida.
Quero ver-te toda inteira, nesse teu jeito de ser, com esse brilho nos olhos onde verdejam os prados e o lago de água mansa onde navegas na esperança.
Como podia encontrar-te, repetida e sem cor ?
Mergulharia na dor de perder o teu amor!
E, depois, outro senão.
Será que a mosca tem coração ?
Lá ter terá, certamente.
E cabe nele a ternura, a compaixão, o amor e até talvez a loucura ?
Na dúvida, digo que não.

(35) O LOBO MAU

Não tenhamos dúvidas
se fomos crianças
se fomos amados
foi com intenção ternurenta que nos embalaram, contando e recontando, entre outras, a história do lobo mau e do capuchinho vermelho, mergulhando a nossa candura de então nesse mundo do faz de conta.
Aí nessa profundeza onde, separados os bons dos maus, se esvaziam os espaços intermédios. Mais ou menos bom ou mau não existiam.
Vamos crescendo nesse encanto, sem nos apercebermos do seu desencanto.
É óbvio que ainda hoje, na vida real, há por aí "lobos" a comer o capuchinho e a avozinha e, se apetite lhes restar, ainda se aproveitam do cabaz da merenda.
O verdadeiro sacrificado, no meio do turbilhão, parece ter sido o lobo.
Viu a sua reputação arrastada na lama, não que isso lhe importe por certo, quando no fim apenas cumpre o seu fado e o lugar a ele destinado nesta prisão enorme que é o nosso planeta.
Mais um a sofrer do preconceito.

sábado, 23 de setembro de 2006

(34) FAZER AMOR


Vamos fazer amor...
Coisa vulgar de ouvir, no recato de qualquer conversa intima, no autocarro, em bares, cafés e discotecas ou na invasão sistemática com que o pequeno ecrã castiga a nossa casa.
E aprofundando a pesquisa, mesmo sem recurso ao filme porno, podemos citar algumas frases tais como:
Fiz amor
no chão da cozinha
na banheira
no tapete
em cima da mesa
com o gato a ver
Entre uma infinidade de outras, e até por vezes na cama.
A moral que tirei da história:
O amor fabrica-se, sendo apenas necessário alguma imaginação e a presença mínima de dois artífices quiçá bastando um se de génio se tratar.
Ora isto causa-me grande confusão.
Havia arrumado na minha gaveta dos conceitos, quase conclusivos, a aceitação de que o amor e o sexo pouco tem a ver um com outro E se, por casualidade, amarmos verdadeiramente alguém com quem temos sexo, isso terá de ressaltar da relação no período que decorra entre dois orgasmos não seguidos. E aqui lhes digo, se o resultado é positivo, então sim é a excepção em que o amor e sexo se aliam.
Não se faz amor, deixamos fluir o amor, somos dois em um.
Na verdade teremos de aceitar que o sexo é servidão imposta pela mãe natureza que astuciosamente criou esse impulso em todos os animais (com o estimulo do prazer) como garante da renovação. Maldosamente vamos dando a volta e usamos os contraceptivos. Como não queremos prescindir do prazer e simultaneamente evitar a vileza, mascaramos então o acto, praticando-o abusivamente, muitas vezes, em nome do amor.
Amor é outra coisa. O amor é dádiva. Nasce nos lagos profundos da nossa alma e curiosamente não se fabrica.
Ou se tem, ou se é pobre!
Não quero confundir amor com sexo. Vou manter os meus conceitos até porque também amo algumas árvores e não me vejo a fornicar qualquer delas.
E que isto não seja preconceito !

segunda-feira, 18 de setembro de 2006

(33) SINAIS DOS TEMPOS

Dizem que o filósofo disse:
Penso, logo existo.
Eram outros os tempos. O tempo, generoso, concedia tempo no tempo e o homem era porventura menos ambicioso.
Pesem embora as vicissitudes de que todas as épocas são prenhes, o homem permitia-se parar, rodear o erudito e escutar o seu dito ou, mesmo que de silencio se tratasse, meditar, atapetando o caminho da reflexão.
No tempo de hoje, e em abono de suposto conforto, o sistema agilmente se perverteu e no primado da busca do supérfluo, o essencial é secundário.
Tu tens ? Eu também tenho de ter... não importa o que seja.
Os próprios eruditos, creio que existam alguns, enviesam e aproveitam-se da credulidade dos seguidores na peugada do mesmo objectivo.
Assim nestes tempos de verdadeira dúvida na busca, de insegurança pessoal, haveria
necessidade de converter o dito
Viesse o filósofo a este tempo e decerto aconselharia::
Penso logo hesito.
E aos verdadeiros pessimistas:
Penso logo desisto.

sexta-feira, 8 de setembro de 2006

(32) MOSCAS

Deixem-me adivinhar ! Bichinho chato e nojento!
Pois, pois, eu também pensava assim e ao ouvir o zunido para a guerra me armava (pufs-pufs e mata moscas), sabendo logo à partida estar de causa perdida.
Mas um dia lá cismei, da arma passei à lupa e na pesquisa mergulhei.
Miles de espécies, miles de formas, miles de cores.
Belo equipamento, olhos multifacetados, máquina de voar completamente computorizada e com soft a garantir perfeita e segura acrobacia, grande estabilidade no poiso, graças ao número de patas e sua fofura e ainda, pasmem, extrema elegância e finura na alimentação, sempre sugando, pela palhinha, a matéria que os seus pés gustativos aprovam. Completam, logo,logo, com apurada higiene íntima.
Predadores aos montes, aéreos e terrestres e, nestes, lugar cimeiro às aranhas e seus engenhos de pescar
Criar, destruir, criar, destruir e por aí fora...
Todavia, e malgrado este desbaste, a capacidade e rapidez reprodutiva bate todos os recordes, deixando inibido qualquer enfatuado macho latino. Os ovos, depositados em matéria orgânica a decompor, eclodem passadas 24 horas.
Este porventura o segredo da sua capacidade de fuga à extinção
Além disso elas ganharam lugar à nossa mesa, não só planando e pousando na comida, mas também integrando o prosear:
· pareces uma MOSQUINHA morta
· estavas como MOSCA no mel
· come a sopa, olha a MOSCA
· o meu chefe hoje estava com a MOSCA
· que raio de MOSCA te picou
e até na política se metem. Ah,Ah ?? Não se riam, pois isto afirmo sem rodeios; a experiência é pessoal e a fonte fidedigna. Foi o caso que nas últimas eleições, cumpridor e no intento de acertar, mas indeciso no voto, pedi conselho a aclarado técnico na matéria. Estivesse eu descansado, respondeu, votasse até de olho fechado e plantasse a cruz aos fados da sorte, convicto ele estava que a trampa era sempre a mesma, só as MOSCAS mudavam.
Dizem ser o dito corrente, só que ao corrente eu não estava e, embora reconheça às moscas esse mau hábito, tenho aqui de confessar, ser a metáfora desagradável para elas.
Aprendi que são vitais, esclarecido que fui.
Sem moscas a terra estaria coberta por plantas e animais mortos.
Tenho de fazer agora uma sutura, por estar decerto a abrir feridas nos poucos leitores dos meus escritos, tendo alguns já comentado a minha aparente solidão.
Para já os descanso, em solidão eu não estou, tenho o quarto cheio de moscas. Em vez de rede mosqueira, vejam só, gradearam a janela. De erro crasso se tratou, quase cabe minha cabeça e as moscas bem transitam.
Aos leitores ainda atentos, reitero as minhas desculpas, mesmo sem ser meu intento tenho aqui de terminar.
Chegou o meu controlador.
Topou que estou com a MOSCA e atascou-me dose dupla para ficar a dormir.
Dormir ??? Claro seria óptimo, não fossem os pesadelos.
Logo fico enorme MOSCA imune aos predadores e a esvoaçar pelo quarto.
Tentativa malograda de passar aquela grade... e voar em liberdade.

segunda-feira, 14 de agosto de 2006

(31) DE CABEÇA PERDIDA

O Eduardo nunca fora de grandes ou continuados amores. Cerebral, supervisionava.
Dizia ele, pisava levezinho não fosse atolar-se em areias movediças.
Dizia-lhe eu, para não brincar com o amor, sobretudo o dos outros.
Mas ele petiscava amor, alheio ao perigo da intoxicação.
Era no fundo um poeta ! Amava o amor !
Idealista, na busca do improvável, diria do impossível.
Disfarçava as suas ilusões em banhos de lógica e cinismo. Sofria...
Amante era do belo e passava largas horas em contemplação.
Sorte ou azar o seu, certo dia, refastelado numa esplanada, admirava o sol, nu e alaranjado, no horizonte a mergulhar em lençol azul cristal.
Alguns flocos de nuvem, tal espuma, emprestavam vida ao mergulho.
Minutos ou eternidades depois, entre essa maravilha e os seus olhos, estacou uma linda mulher, sorrindo.
Conheço o Eduardo. Sorriso retribuído, convite à mesa, uma bebida, curiosidade tremenda em saber, condição essencial, se além da beleza aparente, ela seria também uma mulher linda.
E, de blá-blá em blá-blá, o Eduardo estarrecia pelo imprevisto. Pensamentos, ideais, afinidades preenchidas. E sobretudo perfeita beleza interior.
A Diana, de seu nome, mulher com capacidades e qualidades a permitir-lhe, finalmente, pisar qualquer tipo de areia, afoito e sem receios.
Bebidas esgotadas, disse-lhe um “não fuja” e foi ao bar já ansiando ao retorno.
Passados alguns minutos de impaciência voltou à mesa e à desilusão.
O sol não deixara rasto, a água era agora azul negro.
A Diana desaparecera !
Perdeu a cabeça...
E desde então, de cabeça perdida e sem ver, ali vai com frequência, no mínimo para tentar separar a realidade do sonho.

sexta-feira, 4 de agosto de 2006

(30) CONTRADIÇÕES

No campeonato da vida na terra e neste ano de graça, impensável será a supressão da maioria dos sons, verdadeiro exército na agressão ao complacente e doce silencio.
À sombra de conforto, rodeou-se o humano de apitos, silvos, campainhas e buzinas, agudos e graves correndo a escala, condicionando reacções e condutas.
Estou nesta, e, sendo feros os carcereiros, sem esperança de escapar antes da pena cumprida.
Parto de vantagem. Tenho boa memória e, por tal, apesar de serem muitos já não salivo quando os ouço e corro de imediato para evitar a bisagem.
Trim e trim (telefone fixo) e já estou com ele na mão. Digo estou (sempre que posso evito o alô).
Uma voz de mulher, em tom baixo e sofrido, pergunta por não sei quem. Constato e declaro o engano. Algo nos deixa suspensos... conversamos. Sou modestamente sociável e urbano, estatuto que quero manter.
Abrimos em banalidades, creio eu. As banalidades são por norma os pilares da vida e, vez em vez, entrançam enleios.
Parece ter sido o caso. Poucas banalidades após, e por algum passe de magia, aquela mulher de trinta anos desbobinava a um desconhecido o filme da sua vida de que retirara as cores.
Carente, sem amigos, afectos incompreendidos por selectividade e exigências no retorno, não licenciosa mas licenciada, descrente do sol e da lua, numa perfeita solidão interior transparente, embrulhada em rendas de anseios e desilusões.
E não vivia só, rematou, tinha um peixe, um desses seres do belo mundo do silêncio.
Questionei... confrontei.
Fi-la medir e sentir a sua relutância à verdadeira entrega, o quanto preferia a amargura à ternura e, no entanto, quando o compromisso não existe, abre a sua intimidade a um estranho num espaço roubado a um engano, estranho que a aceita e compreende.
Depois pequei. Acredito que as palavras nos embalam. Dão quase tudo. Necessitam quanto a mim. do tempero dos momentos mágicos: o toque humano, real, na pele!
E sabendo ser boa a relação com os pais, coloquei a ingénua questão:
-Porque não se expõe a seus pais, como o fez aqui e agora a um desconhecido ?
A resposta foi curta e elucidativa
-Ah, os meus pais já andam pelos sessenta anos não entendem destas coisas.
Aqui balancei.
Se lhe digo a minha idade desnudo a sua ilusão e aclaro o preconceito. Se não....

Foi um blão, blão que decidiu. Também não salivei. Era a porta a chamar por mim.
Aproveito o ensejo e despeço-me. No meu intimo fica o desejo que aquele preconceito não lhe ceife os poucos grãos que lhe restam da sua seara de amor.

domingo, 30 de julho de 2006

(29) O TESTAMENTO

E ali estava eu com o pé esquerdo pousado naquele belo e fofo solo azul celeste, polvilhado de algodão.
Êxtase e surpresa, não tanto pela inclusa sugestão da morte, mais pela benevolência da paradisíaca sentença.
Todos vamos cometendo erros na travessia e temeroso andava eu pelos fogos do outro lado, que com o calor não me dou.
Logo me passou na mente a ideia peregrina de, aproveitando o momento, lá pousar o outro pé e dar uma espreitadela.
Nessa querença e com crença, meti o pé direito e no consolo de o pousar... acordei !
Acordei aos pés da cama virado. Belisquei a coxa e doeu. Era tudo encenação e travessura de sonho bom.
Dei a volta completa e, paciente, aguardei o regresso da alma que, de seu hábito, tardava a voltar dos devaneios nocturnos para tomar conta deste corpo e prepará-lo para novo dia que de sol era, já alto e vestido a rigor.
Não deixou de ser belo o sonho enganador.
Passe a lisonja da absolvição, não deixou também de ser aviso da certeza do evento.
À cautela, e sem descuido, irei lavrar testamento dos dois lotes que me restam:
- o dos bens pela natureza emprestados e no percurso moderamente me serviram, vou legar a quem deles cuidar, recomendando o bom uso
- o do amor que me deram, encheu meu coração e deu luz ao tal percurso, esse, que me desculpem, decerto vou precisar e comigo vou levar

segunda-feira, 26 de junho de 2006

(28) O BRINCO


Na paragem do autocarro, à minha frente e conversando, aguardavam um homem e uma mulher.
Ele, rapaz da minha idade, centenário que estou quase.
Em abono da verdade, fintando falsas modéstias, na aparência lhe ganhava.
O estilo, ouvi depois, autentico macho latino, coisa de mim arredada.
E a olho desarmado, pese o contraditório, parecia Sancho não Quixote.
Tudo certo, somos diferentes, não fosse o belo discurso a cair sobre um cartaz, ali mesmo à nossa frente, dum actor cá do sitio, de orelha abrincoada.
Dizia o homem assim: O quê ? Aquele também virou ?
E a mulher respondeu:
Não tem nada de mais o pai também usava brinco
- Ora, ora, eu uso as pendurezas noutro sitio.

Contra aquele preconceito, funcionou de imediato o meu:

Pouca inteligência, só embrulhada em bom senso. E o bom senso ali ditava que o acessório não garante o atributo. Fosse essa a regra teria de ser notado que a mulher usava calças.

E a tentação foi questionar.

Um sujeito atrás de mim, abrincoado também, evitou a minha entrada, e foi curto e grosso: Oh meu! Se calhar só te serve para pingares os sapatos e mesmo assim quando não queres.

Não havia necessidade !
Mas lá que foi merecido, foi...
E a dúvida me ficou se o sujeito da lição aproveitou.

Acredito que a excepção a “burro velho não aprende”, não vence no caso contado.
.

domingo, 11 de junho de 2006

(27) CONFISSÃO

PRECONCEITOS ? SIM, CONFESSO:
Eu tenho...
E não me consola saber que o verbo se conjuga por inteiro:
Tu tens, ele tem e também são verdadeiros os plurais.
Humildade, aceitação da diferença, evitam a fácil critica.
Nesse pisar descalço, alguns se irão perdendo, vindo outros por acréscimo..
E o segredo será conseguir que as percas superem os ganhos




sexta-feira, 9 de junho de 2006

(26) AS PORTAS E A PORTA

Estranho amigo do peito aquele.
O Ricardo era assim.
Metido consigo, cozinhava as suas dores em lume brando e partilhava comigo o cozinhado.
Sofrimento e prazer, como sempre, tudo ao molho.
A olhar a bica e os pasteis de nata, filosofávamos sobre o aparente sem sentido do sentido da vida.
Filósofos de água a ferver, como ele dizia.
Naquele dia um lampejo de entusiasmo minava-lhe o semblante por regra sisudo.
Espanto o meu, habituado que estava à sua fronha cerrada.
Logo confessou e descodificou.
Era para ele a vida um grande jogo.
O prémio assegurado: a morte !
O jogo era iniciado perto da grande arena. As regras, simples e fiáveis. Oferecidas eram imensas portas, correspondendo a outros tantos percursos. Concluído o percurso ou em qualquer passo do mesmo, podia o jogador regressar à arena e escolher nova porta, nova caminhada, sabido porém que uma delas era a última, a porta maior, a sem retorno.
Tão diferente e tão semelhante aos romanos jogos ali então em uso. Nestes a morte resultava de violência imediata que alguma força ou perícia podia apenas adiar.
No jogo do Ricardo, as dores e o sofrimento porventura estariam lá. Seriam contudo mitigados por uma ou outra centelha de felicidade emprestada de algum dos percursos.
Em confidencia me disse que andava nisto há muito, usara e abusara, impetuoso, sem hesitar na escolha, nem sequer temido ou desejado a porta grande.
Saíra hoje do último percurso e decidira abrir outra.
Poucas restavam.
Após tanta caminhada, de sucesso e insucesso, de ganho e perca, de amor e ódio, gostaria de saber, dizia ele, qual delas era a porta grande.
Estava cansado. Apesar da pedra pisada fora privilegiado, vivera com intensidade e bebera de muitas fontes.
Não comentei tanta excitação e entusiasmo.
Uma ligeira brisa trouxe o silencio, acompanhado de algumas estrelas. Aceitaram o convite para a nossa mesa. Entre todos, sem comentar, fomos trocando as nossas verdades.
Algum tempo depois o Ricardo, sem falar e com estrelas nos olhos, deu-me um abraço emotivo, beijou-me, e foi...
Ele era assim.
Olhei, triste, os pastéis de nata que sobravam.
Sou guloso, comi-os.
Não tinham gosto, antes alguma amargura.


O Ricardo não voltou mais

domingo, 14 de maio de 2006

(25) ROSA

A Rosa foi em menina botão de encantar. E assim, sem espanto, ficou mais bela a desabrochar
Metida consigo, sonho compulsivo, ao sol queria luar.
Gostava da noite, quieta e calma, e desse luar a banhar a alma




Depois já mulher, por desgosto de amor,
perdeu-se na noite
e no sonho vivido





















E a desfolhar por lá tem andado no labirinto do seu triste fado
Tão perdida que está
já pensou em voltar
Encontrar o caminho e ao sol retornar
na esperança vã do passado encontrar


terça-feira, 2 de maio de 2006

(24) VOAR

PARA LHE VER O ROSTO
VOU TENTAR VOAR
DEPOIS VOLTO

Como prometido, voltei.
Não sendo voar tarefa de somenos, foi todavia o esforço compensado
Cheguei ao topo em plena noite de luar. Essa estranha força e a ligeira brisa, emprestavam brilho e beleza à moldura verde daquele rosto. Aqui e ali pérolas de orvalho.
Porque choras ? Perguntei.
Confidenciou-me ser a primeira vez a receber visita humana não hostil e tão próxima. Havia visto outros, ao longe, montados em estranhas aves, lá onde não se enxerga o rosto.
Confidenciou também a dor da sua imobilidade, quebrada tão somente pelos fortes ventos. E foi com sonho e tristeza que recordou os tempos em que, frondosa, abrigava os ninhos e as aves, seu deleite de então. Confiou-me assim a sua solidão e o sonho de poder voar, justificando a forma estranha do seu corpo pelo esforço das vãs tentativas de o fazer.
Trocados os nossos pesares, aconchegámo-nos num doce e longo silencio.
Logo, logo, passada essa pequena eternidade, no afago da despedida, senti que se aproveitava do orvalho para disfarçar o pranto e já no solo deixei o meu abraço naquele tronco sofrido e rugoso, forte e sensível.
Prometi voltar para continuar a ligar a sua solidão à minha, quiçá ficar.

segunda-feira, 24 de abril de 2006

(23) O COAXO

Sorrateiramente, do repleto e variado cofre da mãe natureza, saquei esta pequena jóia, na esperança de poder estabelecer algum contacto.
Não sei coaxar. Aprendizagem a inscrever num imenso rol de prioridades, porventura a não cumprir, não tanto por falta de interesse, mais pelos limites impostos pela vida.
E ali ficámos, cada um no seu canto, expectantes.
Ela aparentemente serena, confiante não tanto.
Imobilidade, passividade e mutismo
Decorridos alguns minutos resolvi devolvê-la ao seu charco.
Então, e enquanto se abrigava na terra, coaxou.
Um misto de alivio e desabafo, tipo
“Safei-me. Os humanos são loucos mas nem todos violentos.”
Na dúvida, decididamente, tenho de aprender a coaxar.

sábado, 22 de abril de 2006

(22) A VERDADE NUA















O conhecimento da verdade é, em princípio, do interesse colectivo, levando muitos à consulta da bola de cristal, pese embora o risco dela não ser tão límpida e transparente quanto sonhada.
Por mim, como muitos outros, permito que a minha verdade e a certeza andem por aí de braço dado, porém acompanhadas da dúvida e seu benefício, cujo serviço se mostra de grande utilidade ao permitir sensatez e comedimento nas avaliações.
E isto porque penso ser indispensável a chancela da dúvida, mesmo se a verdade se reveste de aparente autenticidade.
Vejam:
Há dias, grande ajuntamento à beira da muralha, alguém se debatia, clamando por socorro. Um chapão na água e o sinistrado é salvo.
Quase todos aclamam o abnegado herói.
Duas pessoas porém conheciam uma verdade diferente.
O salvador… e eu que o empurrei.
Insisto. A verdade raramente se desnuda !

sexta-feira, 7 de abril de 2006

(21) FOLHA MORTA


DIA A DIA, NO PRESENTE
NUMA FOLHA DO FUTURO
VOU ESCREVENDO O MEU PASSADO
UM DIA ESCREVEREI: NADA
FICA A OBRA INACABADA

(20) A BESTA

Alguém me chamou de besta !


Meses antes via em mim um ser bonito (leia-se sensível).

Foi útil a intenção de raiva ou insulto.


Permitiu questionar-me:

Afinal somos aquilo que pensamos ou gostaríamos de ser ou somos apenas validados pelos outros nos seus espelhos mutantes?