sábado, 14 de outubro de 2006

(44) A MEMÓRIA






Não me recordo o que comi ontem !

A todos acontece.

Mas também estamos aqui e, num piscar de olhos, estamos lá, onde quer que seja, a gozar ou a chorar momentos antes vividos. Não há tempos, não há distancias. Nem há agência de viagens que garanta este serviço.
Pois. É uma capacidade maravilha de que dispomos e alguns menosprezam.
Os aviões também tem, suponho menos sofisticada e não tanto sigilosa. Pode ser lida por estranhos na descoberta dos mistérios dos acidentes.
Para nós é uma caixinha onde vamos ciosamente arquivando o filme da nossa vida, sucessos e insucessos, alegrias e tristezas, dor e prazer. Guarda o bom e o mau e estamos a nu.
Cada um tem a sua. Ordena e gere o arquivo como melhor entende.
Gosto da minha. Palavra ! Estou frequentemente a espreitar, com o cuidado devido, não vá qualquer rabanada de vento prejudicar a arrumação.
Tenho uma memória mais espacial do que temporal.
Traduzindo: a cena para mim é ali mesmo viva e vivida, não interessando o quando mas onde.
Em momentos menos criativos em que o mundo resolve colocar os pés nas nossas costas e a solução mais óbvia é sentar ao canto e deixar passar a crise, a caixinha e o seu conteúdo são bastante úteis e cooperantes.
Por crer que a memória é um tesouro lhes peço que evitem perdê-la.
Poderia restar o consolo dela servir a alguém. Mas não, é pessoal e intransmissível. Se alguém a encontrar, de nada lhe servirá..
Além disso é essencial. É a nossa identidade, o nosso passado.
Virtual que seja, não há outra pessoa capaz de o reconstituir, nem por aproximação.
Existe outro perigo na perca.
Há por aí uns sábios doutores que jamais acreditam que tenhamos perdido a memória por descuido. Dizem ser doença e para a identificar logo aplicam aqueles palavrões que de modo algum desejamos nos digam respeito. Senilidade... ou pior, senilidade precoce ou ainda outros e além disso estrangeiros.
Bem... Se isto serviu de algo, contente eu fico, e, sendo já passado, vou colocar o texto na caixinha com a nota de favoritos.
Será bom sinal que se vão lembrando de mim...

1 comentário:

preconceitos disse...

De Maricel a 17 de Outubro de 2006 às 23:54
MEMÓRIA......
Aqueles que tudo recordam, indo até ao pormenor , lhe dizem "TENS MEMÓRIA DE ELEFANTE".
Estes, que nada lhe escapou, dizem ao que por qualquer motivo esqueceu, momento, circunstância e quanto a pormenores ainda menos recorda, "parece impossível, como não te lembras? se foi contigo que se passou. "MEMÓRIA DE GALINHA" TEMPO" "ESPAÇO"
Já há alguns anos, assisti a uma conferência, onde afirmavam que, o ONTEM o HOJE e o AMANHÂ existem em simultâneo . Nesta teoria, só acredita quem quer, ou se já teve alguma experiência que o prove. É muito "individual"

De preconceitos a 18 de Outubro de 2006 às 18:49
ONTEM, HOJE E AMANHÃ quase que na verdade coexistem. Estão tão próximo uns dos outros.
É fácil considerá-los abraçados.

De yuki a 18 de Outubro de 2006 às 22:04
A uma amiga da minha mãe foi-lhe diagnosticada uma doença que afecta a memória... o médico aconselhou-lhe que tudo que se fosse lembrando, quer fosse da sua infância ou adolescência, quer fosse dos filhos, quer fosse de tudo que tem passado no casamento, que escrevesse!
Assim qd perdesse de vez a memória, tinha um registo do que relamente acontecera e com a sua própria letra.
Infelizmente, não teve tempo de constatar isso, a doença foi galopante - Alzheimer.
É melhor começar a escrever as coisas de que nos vamos lembrando... just in case.

De preconceitos a 19 de Outubro de 2006 às 15:58
O passado, aí incluido o minuto antes deste, é virtual, segundo penso. O nosso passado é a nossa memória. Só temos passado enquanto vividos nela ou na dos que nos são queridos.
Há um momento em que apenas somos histórias, valendo pela emotividade.

De Yuki a 21 de Outubro de 2006 às 01:36
Para que servem as fotos? Não são elas uma ajuda à nossa memória?
Por que não um bloco de notas?
Algo que dalguma forma nos devolva a emoção enquanto histórias que somos...

De preconceitos a 21 de Outubro de 2006 às 09:39
Alguém que muito amo, perguntou-me um dia do alto dos seus cinco anos: Tens uma foto minha para te lembrares sempre de mim.?
Respondi-lhe que tinha e porventura não precisava porque ela estava sempre no meu coração, mesmo quando regressasse a minha estrela.

De yuki a 23 de Outubro de 2006 às 23:37
É facil guardar no coração, na memória, seja em que directorio for, alguém que nos marca ou marcou.
Agora toda uma vida de acontecimentos, a memória não tem espaço para isso e acaba por selecionar apenas aquilo que lhe é importante.
E o resto? E se a memória falha?
Dá-se conta que por vezes nem dos que mais amamos nos lembramos, tal é a partida que certas doenças fazem..

De preconceitos a 24 de Outubro de 2006 às 10:30
Se queres o meu ponto de vista, acredita que acredito em toda a maravilha que nos rodeia.
E, na preparação da partida, nesse sacar da memória, vejo finalmente um rasgo de piedade, supondo que o próprio não sofre, não sente as percas. A verdadeira dor fica para quem fica.

De Di a 24 de Outubro de 2006 às 11:47
Concordo contigo. Acredito que tudo tem uma razão de ser...por algum motivo essas percas acontecem. É verdade, magoa mais os outros do que os póprios. E depois,....nós somos sempre o produto de todas as nossas experiencias passadas, quer elas estejam conscientes ou não, gravadas foram sim e tudo o que vivemos não se perde só pelo facto de que não nos lembramos....a memória fisica é fragil...mas a da alma é eterna!

De preconceitos a 24 de Outubro de 2006 às 19:10
E depois será que vale a pena manter em memória todo o percurso ?Suponho que na nata estarão os acontecimentos muito maus e os muito bons.
Sendo que nos muito bons englobo simples momentos que mexam com as emoções.

De Di a 24 de Outubro de 2006 às 22:05
Quanto ao que vale a pena, eu só posso falar por mim...Não não vale a pena, os detalhes para mim são irrelevantes. A nata, essa às vezes também se me varre...inconscientemente se faz a selecção. O que eu sei que perdura, que vale e que fica é o produto final em que me torno depois de ter passado pelas emoções. Afinal os acontecimentos não passam de meros estimulos externos para que eu possa experienciar as minhas emoções ( internas) que por sua vez são temporais. Porque não abrir mão delas...se tal for conveniente....


De Maricel a 19 de Outubro de 2006 às 11:04
Resposta à yuki
O concelho desse médico é valioso, e muito útil.
Essa informação deve ser divulgada, pois irá ajudar
algumas, senão muitas pessoas, que estão passando por esse problema.
E também aqueles que sintam que podem passar por lá.
Para mim faz todo sentido. escrevermos sobre nós é um òptimo exercìcio