
Quando entro no virtual ventre do passado, lembra-me a época em que as criticas ao poder instituído, pelo apertado controlo, só poderiam ser descarregadas na privacidade e, desse modo, quando, e só por absoluta necessidade, me servia dum sanitário publico, era garantida a distracção enquanto decorria a função.
As garatujas enchiam paredes e portas, maldosas umas, porcas outras e algumas escondendo verdades nas pregas do humor.
Enfim local único para transcrever ideias e opiniões proibidas noutros espaços pela verdade contida.
Lembra-me a graça duma delas. Na porta, frente à sanita, em letra miúda o suficiente para nos fazer aproximar a cabeça nos limites da curiosidade e a surpresa quando se conseguia ler o escrito:
"cuidado, está a fazer fora da sanita"
e também poderia ser verdade.
Enfim, pachola a malta daquele tempo, dona de algum sentido de humor, negro que fosse.
Hoje, as chamadas novas tecnologias (e se d'ontem já velhas são) não deixam espaço a qualquer privacidade e suponho nem mesmo os sanitários escapem.
As garatujas das portas e paredes passaram livremente à imprensa diária, tendo sido retirada a adrenalina e o respectivo gozo.
O pior de tudo é que nem parecem verdades.
Ou não serão mesmo ?