terça-feira, 9 de setembro de 2008

(179) O tango

Anunciam na Ribeira tardes dançantes, lembrando as velhas academias de décadas atrás.
Não sei o que hoje ali se passa, nem sequer tipo de frequência ou som, mas posso especular na diferença, atendendo aos actuais padrões éticos e sociais e às liberdades ou libertinagens agora acrescidas, como queiram.
Antes, no tempo de "a menina dança ?", a coisa era castiça.
Castrados pelo atraso na chegada da internete, homens e mulheres podiam assegurar ali, além do prazer da própria dança, os seus convívios, encontros, enleios e paixões, por vezes com passadeira directa ao altar.
O som era então melódico, lento, com poucas alternâncias do chamado "abanar do capacete".
Intervalavam, para arrefecimento corporal, no clássico "damas ao bufete", olhos postos na gasosa ou pirolito a pagar pelo gentil cavalheiro.
O Amancio e a Rosalinda haviam-se conhecido numa dessas, talvez no salão dos Bombeiros Voluntários à Camilo Castelo Branco.
Respeitadores (?!) semana após semana, ali se enlaçavam, rolando na lentidão dos slows e tangos, preferindo o centro do salão na fuga evidente aos inquisidores olhares das matronas, acompanhantes das mais jovens, e também para, esquecido o pudor, encostarem os rostos e semicerrar olhos nas asas daquele fugaz sonho.
Então a musica era o somenos. Eles marcavam o ritmo.
E, numa dessas ocasiões, a uma maior pressão das mãos do Amancio nas costas da Rosalinda, esta tremelicando balbuciou:
--Ai senhor Amancio, senhor Amancio...
E o Amancio, de cabeça completamente perdida, replicou:
--Amansio a senhora. Eu já não posso!!
Acabaram por casar. De branco e flor de laranjeira. Se foram felizes não sei.
A ranchada de filhos decerto desconhece que a Cumparsita ou o Bejame mucho, tiveram grande influência na sua chegada à vida.

(178) A escolha

domingo, 7 de setembro de 2008

(177) Saia/calça

Tinha esperança, enquanto por cá ando, assistir à reconciliação do preconceito e da verdade.
Porque, para tal, seriam indispensáveis cedências mutuas, porventura não será provável e tão pouco possível.
Coabitando no palácio da vida, o preconceito sai e anda por aí tresloucado e valdevinos, dando-se a conhecer a todos, enquanto a verdade raramente se atreve a assomar à janela e com ela poucos privam ou tem ideia distorcida, tal a foto aqui apresentada.
Muitos a terão como interessante, contudo poucos perceberão o que retrata.
Na poeirenta, todavia arrumada, cinemateca da memória, ao rever filmes dos anos 50 ressalta a evidencia: a mulher não se permitia usar calças.
Puladas umas décadas, não é fácil encontrar mulher de saias, ressalvada a circunstancia, a temperatura e o conforto.
Óptimo, a razoabilidade ganhou espaço e acrescentou beneficio.
Resta porém uma questão por resolver.
A mulher usurpou a veste do homem e todos dizem: é moderna, é prática.
Se o homem usar vestimenta tida por feminina, na vã esperança dos óbvios benefícios, será de imediato tido como homossexual, travesti ou outra cena, só obviamente olhada benignamente em época carnavalesca e, mesmo aí, com o peso da preconceituosa malícia e despropositada exclusão das opções e liberdades dos outros.
Porque não abre o preconceito a porta do guarda fato, permitindo finalmente a plena igualdade entre os sexos ?
Ah ... é que na "verdade" parece não ser provável, nem tão pouco possível.

E aos crédulos vou dizer, a foto, embora não pareça, é duma abóbora.
Sei que é verdade. Foi a minha digital que me contou !
Não se podendo confiar na verdade, verdadeira, até se justifica o devaneio dos disparatados preconceitos.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

(176) Segredos



A hora era tardia (onze da manhã)
e a lua fugia,
outras noites procurando.


Viria de grandes feitos,
daí a coroa de louros
atributo dos eleitos.
...
Numa noite de luar,
de certo me vai contar.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

(175) Soporíferos


Creio se me desse a fazer um pequeno inquérito sobre o melhor soporífero numa população de humanos medianamente cultos, seja lá isso o que for, a maioria esmagadora apontaria o seu dedo ao pequeno ecran que deixámos um dia entrar em nossa vida e veio para ficar.
Não sei se será contágio, até já cabeceei em frente a este seu primo, o monitor do PC. Talvez fosse mero cansaço, mas...enfim adiante. Esta prosa não é de fraquezas...
Naquele período em que estamos razoavelmente despertos, mesmo em filmes medíocres ainda esprememos bons petiscos.
Assim foi um dia destes e, do dito filme, nem o titulo me recorda.
Seria uma daquelas séries que passam e depois dão corda e tornam a passar (e não é telenovela aquilo de que estou a falar),
Bem e foi assim.
Numa conversa de amores por sinal entre uma hetero e um homo, dizia ela que não lhe interessava o sexo.
Argumentava então ser coisa de muito trabalho para prazer de curta duração.
Preferia uma boa massagem às costas, mais demorada e compensatória, sem tantos preliminares, aceite em passividade, sem futuros compromissos, de higiene garantida e sobretudo sem troca de fluidos .
Tanta graça e discernimento encontrei nisto !!!
Até graças dei por não ter adormecido.

(174) Felicidade

Quem já caiu na asneira de perder tempo a ler as minhas maluqueiras, deve ter verificado que mui raro passo a conversa ou o pensamento dos outros.

Nem sei porquê!!!

Talvez prefira prosa mais fraca, chancelada de meu original. São feitios.

Todavia tenho encontrado blogs com transcrições que me preenchem e completam e a que certamente não teria acesso se esses bloguistas fossem tão medíocres quanto eu.

Contudo a esta não resisto e me perdoem os que da minha opinião são.

Terão de fazer o favor de ler e com a nota de que me revejo nos conceitos, tanto mais que a minha primeira entrada neste blog, já lá vai tempo, foi com pensamentos sobre a felicidade, ditos de Chico Buarque.

E até lhe coloco a mesma foto por depreender que a felicidade anda por aí, em liberdade, não sendo fácil de agarrar, como o jacto que por ali passou.


A felicidade exige valentia.
"Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes mas, não
esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo, e posso evitar que ela
vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios,
incompreensões e períodos de crise. Ser feliz é deixar de ser vítima dos
problemas e se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no
recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida. Ser feliz é não ter
medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para
ouvir um "não". É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."
Fernando Pessoa - 70º aniversário da sua morte

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

(173) Ofensas

Raros feed-backs obtenho destas minhas escrevidelas e, estou seguro, se um gráfico de barras me desse a elaborar, obteria sem surpresa duas colunas notáveis: A dos que não me entendem e a dos sem opinião. Esquecendo estes, o mal dos outros é porventura o meu demérito.
Obteria também outras colunas de reduzida dimensão. Dizem ser só choradinho, não sabem onde quero chegar, é só desanimo sem fé, e por ai fora...
Também foi notada ofensa por omissão, para meu espanto e sem qualquer remissão.
De meu feitio não é ofender seja quem for, nem sequer inimigos, que sem saber os posso ter.
Para mim sinto e faz sentido a leitura do que escrevo, sendo o facto confirmado quando por vezes passeio nos escritos do passado.
Não sendo estilo ou forma o meu objectivo, a pretensão se reduz ao relato dos olhares e sentires na vida de cada dia, tentando nisso evitar a mascara ou traje de fantasia.
Nem o espelho me deprime, esse falso verdadeiro, na certeza de não devolver minha imagem por inteiro.
Mas bem, não querendo ofender alguém, despeço-me até pro ano.
Aí ficam as flores.

(172) Fardos

Ao nascer carregamos alguns fardos.

Parte deles bem pesados.

Um conterá porventura os alimentos destinados à sobrevivência.

Dizem que o tempo de vida e permanência por aqui dependerá do uso que desse fardo fizermos.

Aqui fica a noticia para quem dela proveito quiser tirar.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

(171) Imortais



Quando o olho humano observa a função da criativa natureza, depara com algo despótico, incongruente e redutor: a aparência do sem sentido da destruição do ciclo vibrante de vida e seu incessante renovo, qual artista jamais satisfeito com a sua obra.
Posso entender, não sendo fácil nem liquido, o sacrifício do individual ao colectivo.
A espécie detém o privilégio, o individuo a insignificância, reservado que está o seu papel em cena à garantia da continuidade, papel relevante porém independente da sua vontade.
O sistema, aliás perfeito no intento, evita a extinção, e, no temor das falhas, concede milhões de hipóteses fecundantes, na certeza de garantir o resultado, subsistindo os mais resistentes e porventura alguns mais astutos.
Muitos admitem a mortalidade e retorno, caindo no logro de tomar a dádiva da mente por favor divino e vão sofrendo na inevitabilidade da perca, frequentemente desprezando o real uso do tempo concedido.

De certa maneira sinto-me um resignado imortal.
Pela transmissão genética estarei presente pelos tempos dos tempos, noutros corpos, noutras mentes, noutras dimensões e necessariamente com diferentes sentires e olhares.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

(170) Hoje! ... e depois

Em tempos, alguém, por afinidade a mim chegada, falando de encontros "de amor" (notem-se as aspas e que se lhes dê a importância que tenham) deixou-me o sino na orelha.
Disse então à laia de sentença:
- Nessas ligações, nós, mulheres, pretendemos uma situação enquanto vós, homens, lhes basta uma relação.
A tradução, óbvia à época, implicava o homem viver o momento e a mulher também, esta porém com um olho no futuro, muito naturalmente ressalvadas as excepções que emprestam crédito às regras.
O facto acabava por minar a união pela incompatibilidade de interesses e seria o contexto social o responsável maior ao atribuir à mulher o elo mais fraco.
E não só pelas diferenças biológicas também pela sensibilidade, dependência financeira, critica à prática sexual fora dos compromissos contratuais do casamento, e muitos outros pequenos nadas, então representando tudo.
Vivem-se hoje tempos de situação inversa.
O homem, porventura por semelhantes razões, deixou de ser o falso elo forte. Passou a evidente elo mais fraco, até porventura descartavel, perdendo por bem a insensata arrogância machista.
E não deixa de me espantar que entre gíria de mulheres ainda se ouça: "vê lá se agarras um, de preferência rico", regredindo ao passado e a garantir o futuro, hoje, tão independentes que são.
A menos seja excepção para manter a nova regra. Pode ser.
Ah, já esquecia, a foto não é do paraíso. Não passei por lá !

quinta-feira, 31 de julho de 2008

(169) Exterminadores



A desinfestação resulta duma sociedade onde impera a lei da sobrevivência e não fora o desequilíbrio de forças, desiguais e mal distribuídas, seria lógica e justa, na medida de ser esse o impulso de qualquer ser vivo.
Acabam por subsistir não os mais invasivos, antes os aparentemente melhor protegidos pela natureza.
Os supostos donos da razão e do polegar oponivel.
Sempre sob o baluarte do efeito épico ou ilustre, de cognome os bonzinhos, estende-se a exterminação até aos da mesma espécie.
Nas Cruzadas era intento expulsar os infiéis; na Alemanha apurar a raça... e antes... e depois... e qualquer dia.
E tudo isto porque o cordeiro, a beber a jusante, contamina a água que o lobo bebe a montante, numa visão egocêntrica do próprio umbigo.
Todavia a teclagem já vai longa e o intuito era alertar para um solitário especialista da exterminação.
O ser apaixonado com uma visão do amor eterno e contagioso, exigindo na permuta igual paga, esquecendo do outro a diferença, a mediação, sentimentos paralelos, não escutando suas falas, nem interpretando seus escritos.
É um perito no uso de produtos altamente sofisticados e dolorosos, com suaves nomes de perfume: obstinação, perseverança, fantasia, ilusão, teimosia e muitos outros.
Não conseguindo a totalidade do amor, actua e, além dos danos colaterais, danifica esse amor, vassoura o sexo e a amizade, esquecendo ser esta a fonte, onde, na essência, vão beber todos os sentimentos nobres.
E, bizarro porém histórico, após o morticínio, considera-se dono da razão e candidamente inocente.
Cuidem-se !!!

terça-feira, 29 de julho de 2008

(168) Crenças

... e convicções
Quando se está atento, as mesas ao lado são excelentes emissores.
Não resisto e me perdoem a cusquice !

- Deus existe ?
- Claro, é a nossa luz, o nosso guia na sua infinita bondade !
- Então porque sofremos ?
- Pode suceder, quando está cansado.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

(167) Outros seres

fotocantodocarlos

Outros seres do mundo do silêncio

Lá tive de passar mais vinte e quatro horas na grande balburdia, por sorte, sete delas a dormir.
Tento perceber este meu desapego à grande urbe onde nasci e em desilusão vivi a idade das ilusões.

A meu favor, dois argumentos lhe juntei hoje: a óbvia integração numa população deveras envelhecida e a falta de identificação ao lidar com o facto.

Dito doutro modo: "sendo os jovens belos uma criação da natureza; os idosos belos criam-se a si mesmo". A minha dificuldade mora em constatar, entre tantos, quão poucos são.

Nos transportes públicos, a algazarra e a falta de respeito ao outro, fizeram-me invejar esse maravilhoso mundo do silêncio, habitado por seres belos, insinuantes, distintos, porventura também devorando-se entre si, em silêncio porém.

(166) Quem és ???

Plim-plim Sinal de mensagem.
Não conheço o número nem me interessa conhecer.
Mensagem anónima, pois, questionando: quem és ???
Normalmente apago e esqueço. Não foi o caso.
A duvida e incerteza é de constância avivada.
O próprio perfil do blog nos impinge o quem sou, questão que tentamos iludir, capeando-a de ses e talvez, no fundo a esconder a tremenda ignorância.
Respondendo, diria "nada", para não plagiar o outro que apontou e disse "ninguém".
Ou talvez, quem sabe, seja uma mal arrumada pitada de poeira cósmica que o vento em breve espalhará.
Continuarei na penumbra, mas valeu esta mensagem!!!
Bem haja.

sábado, 19 de julho de 2008

(165) Seres pensantes



A viagem d'hoje, sobremaneira me agradou.
Nem sei a razão. Talvez por ter ido ontem e ansiasse o retorno.
Começo a temer o dia em que, ao lá chegar, não tenha jeito de ficar e regresse no mesmo expresso, deixando por cumprir as obrigações absurdas duma vida finita.
No percurso, olhando os campos prenhes do esforçado e humilde labor do homem, permito-me duvidar da sanidade do chefe de orquestra da natureza.
Porventura, a criação do dito humano não seria problema se os limites fossem semelhantes aos concedidos a outros e tão maravilhosos seres que por aí habitam e com alguns dos quais até uso e abuso privar.
Quis todavia ensaiar o insólito e concedeu a esta criatura a faculdade de pensar.
E daqui não mais teve mão na harmonia.
Nem batuta obedecida.
Logo se apercebeu.
Uns aproveitaram em demasia, outros não tanto e houve até alguns que, sabiamente talvez, rejeitaram o beneficio.
Esses, não pensadores, integraram a escola geral, o instinto lhes basta, continuando a tocar o seu instrumento e, sem opinião, pouco entravam o processo harmónico.
Os pensadores medianos, demasiado contestatários, arrogantes, dizem se pensam logo existem e daí causam perturbação quanta baste nos acordes, tocando cada um a seu belo prazer.
Os demasiado pensadores, necessariamente pessimistas, logo desistem, tornando-se prejudiciais ao conjunto, pela falta de entrada a seus tempos.
A balburdia é agravada pelo facto de não ser linear o preceito.
Entre existentes e desistentes, como em tudo, são extensas as zonas cinza, nem branco nem negro, acolhendo os pensadores menos convictos da sua opção.
O grande maestro, incapaz de regredir nos seus favores, estará de todo arrependido e receoso duma eventual paralisação da sua antes bela sinfonia.
Para quando ? Resta saber!!!
Tudo me foi contado pelas arvores enquanto ondulavam, acenando o seu adeus à passagem do autocarro.
Aqui fica o relato, convicto de não estar a cometer indiscrição.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

(164) Recados

Não lamentes.
É o primeiro passo na descrença.
E a verdade sempre nos confunde.
Eu sei.
Aprendi noutras lutas, noutras batalhas, noutras derrotas
Perdendo o medo e com ele a esperança.
Deixei de ler. Deixei de chorar.
Contentam-me os despojos da memória,
essa implacável amiga.

Há muito não te dou um abraço. Fica bem; na luz.

terça-feira, 15 de julho de 2008

(163) LÁ DO FUNDO

Era intenção "LÁ DO FUNDO" ir revendo alguns textos do passado e assim funcionou até agora.
Para não se perderem entre os outros, passaram esses textos a ser lincados à esquerda do blog na rubrica "Pescando no passado" e ali podem mais facilmente ser visitados.
Este texto não foi eliminado para manter os comentários.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

(162) Outros tempos



Homens poderosos
Imitando a bravura do animal

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sexta-feira, 11 de julho de 2008

(161) Amores imperfeitos

Não via o Julião há dois anos.
Gosto deste tipo e sinto o seu fado, talvez por ser capaz de lhe vestir a pele.
É ele assim um rapaz da minha idade, de muita pedra partida,.
Quando levou a pancada da viuvez, deambulou e, nos anos seguintes, fechou-se nele sem tentar sequer, por ser tarde ou não, procurar companhia.
Meio destroçado, parecia contudo bem assente na sua cimentada solidão, continuando a usar velhos remos, singrando, horizonte à vista, no mar do resto da vida.
Dizia que para ele o sexo morrera, acrescentando “e já era tempo”.
Neste reencontro leio tristeza no olhar, mais quebrado, esfomeado de se fazer ouvir e, de meu hábito, ali estava eu pronto a saciá-lo com o pão da minha escuta.
Finalmente conhecera alguém e, duvidoso do próprio desempenho, foi sem convicção acabar na cama, não propriamente para dormir.
Aos poucos acabou por se convencer que afinal o sexo apenas hibernara, surgindo agora em edição envelhecida, quiçá melhorada.
Entendiam-se. Dava certo. E da habituação passaram ao teste das compatibilidades e afinidades, coisa que o Julião entende correu na inversa e deveria ter sido o primeiro passo.
E, para não estender o relato, de imediato descrevo o sintético perfil que dela traçou .
Sensível e crente, demasiada crença, aceitando sem discussão ser o homem rei da criação.
Grande apreciadora de touradas, não vendo nelas a crueza do acto e aceitando que afinal os touros estavam aqui para isso.
Na roupagem, fervorosa devota dos Vuiton, Gucci e outros que, impondo a moda, não dão lugar à individualidade.
Senhora e sonhadora de andanças e viagens em que muitas andara.
Amante da mesa, perfeita no detalhe, convicta que ali se cria a identidade e, por tal, com alargada convivência social.
Desejosa de alargar o conhecimento da relação a familiares e amigos, como se, em idade tão adulta, os outros tivessem algo a ver com o encontro dos dois.
Ansiando por uma vida em comum, coisa arredia do Julião que, na verdade, nem já conseguia dormir acompanhado na real acepção do termo.
Se aceitar este sintético perfil e situar nele o que conheço deste meu amigo, poderia dizer, também sinteticamente: seria como se estivessem na linha do equador, ambos a alta temperatura, mas diametralmente opostos; estilos de vida arreigados, óbvia e praticamente inalteráveis no declínio.
O homem de vida simples que é o Julião, reconhece até ser possível que o ideal more no outro extremo e nem uma palha mexeria para que ela mudasse mesmo viesse isso a ser possível. Não queria, conhece a vida.
No seu âmago e por seu feitio, gostaria continuar amigo.
Nunca gostou de morder a mão que lhe faz festas.
Ela não o permitiu, acusando-o de brincar com os sentimentos dos outros e ser pessoa de usar e deitar fora.
Foi a gota de água e a lamina afiada que introduziu a duvida.
E questionou-me ele:
—Será essa a imagem que passo aos que atravessam a minha vida ?
Dei-lhe um abraço, beijei-o e disse-lhe:
— Não, não és assim. Eu sei e tu também.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

(160) Arte e Manha




Amigo do peito, há muito saído da roda da vida, de presente me fez um pequeno e belo dicionário ilustrado.
Aprecio a branda e lenta evolução, sem abandonar costela conservadora, e depois gosto de bonecos.
Bonecos, objectos, coisas, são parentes próximos dos actos e sempre superam as palavras.
Ao aceno, esse pequeno grande gesto e suas fortuitas intenções, corresponderão mil palavras e, todavia, é tão simples, maravilhoso e insinuante, esse manejo da mão, mesmo quando aparentemente nos manda a qualquer lado onde não fazemos intenção de ir.
Por isso, pesem embora, as décadas do tal livrinho, ali continuo a beber, no permanente borrifo aos acordos e diferenças.
Sou descuidado no acento, na rima e concordância, às vezes por manigância.
Na escrita deixo a arte aos eruditos e continuarei manhoso enquanto tal me der gozo.

(159) Consolo


Afinal existem bruxas ?
Um diz não crê, outro indeciso queda.
Por mim, mais preciso vou ser.
Como justificar dias cinza-negro e sem sentido, fazedores de desespero ?
Madrugada ainda alta, chegam eles sem pré aviso ao abrir do olho esquerdo e, logo, vontade e animo mal conseguem aquele sono interromper.
Mas enfim lá tem que ser ...
Com alimento e janotas, mais a lista d'afazeres, sai o arranque da saga.
É a espera; o ainda não; o não está cá; o venha amanhã; o transito; a balburdia e o constante vai e vem do eterno faz de conta.
As negas já sedimentam desanimo e desespero e, se a tarde for assim, nem o almoço cai bem.
Nesses dias cinza negro evito fazer de tolo, não desisto e insisto obter algum consolo.
Já a casa regressado, calço sapato apertado e vou correr meia hora.
De volta dessa corrida, esqueci o negro dia e os azares nele contidos. Afinal outras dores já ganharam primazia.
Um só acto me convém, os sapatos descalçar e desse alivio gozar.
Afinal que consolo... que belo dia...
O resto ? É virtual, já não lembra, não passou de fantasia.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

(158) Entre muitos...

A solidão tem o seu êxtase






quando nos sentimos sós entre a multidão

(157) O quê... ou com quem!


De viagem a textos antigos, parei em:
Só passaram dois anos e, reconheço, sem me gabar, estou cada vez mais tolerante.
Do texto aos extensos arquivos da memória, lá fui buscar um processo com estrela, arquivado há algumas dezenas de anos.
Em tertúlia de café, uma mulher, rapariga então, afirmava no grupo que quando em relações sexuais o fulcro do interesse ia para o que estava a fazer e não com quem o fazia.
Revoltou-se o ser idealista nessa época residente no seio das minhas emoções, ainda cativo das reaccionárias ilusões que o caminho vai ceifando.
A afirmação era demasiado assertiva e avançada, numa época em que a mulher, por regra, reprimia as suas fantasias, obedecendo quase cegamente à pressão do grupo (menina séria não falava dessas coisas).
O reino era o da hipocrisia.
Embora ainda me penalize, aceito hoje, como já o fazia no texto de há dois anos, a razoabilidade do conceito daquela rapariga.
Todavia o ser ingénuo e emotivo, perene habitante do meu corpo, acredita ser possível, porventura pouco provável, unir num acto só a dualidade sexo e amor, despindo a natureza da sua manhosa mascara.

domingo, 22 de junho de 2008

(156) LICENCIATURAS

Pisei três Faculdades no meu percurso.
A de Direito, a de Economia e a da Vida.
Deixei as duas primeiras pela metade e nunca aprofundei a causa.
Talvez pelo sentimento de nada aprender por ali.
Talvez pela inutilidade da sua efémera aplicação prática.
Talvez por força da ultima.
Nessa sim, em cada ano tenho renovado a matricula e, também confesso, não sei a causa.
Sou repetente e a matéria é vasta.
Parte dela provoca grande sofrimento e dor.
Exige constante mudança de compêndios.
Encobre as ilusões sob o diáfano manto das convicções.
Todavia e estoicamente, vou continuando.
Questiono-me: porquê ?
Dum blog que uso visitar e onde frequentemente me revejo transcrevo o texto que aparentemente me dá a resposta nesta continuidade: (http://caminhoseternos.blogspot.com)

"Este é um teste para descobrir se a tua missão na vida está completa Se estás vivo é porque não
Ninguém morre sem ter experienciado tudo o que veio experienciar ao mundo físico."
---
Tanta experiência já acumulada!!!
Quantos mares e desertos ainda terei de atravessar ?

domingo, 15 de junho de 2008

(155) MIRAGEM

Segredos do meu mundo Posted by Picasa

sábado, 14 de junho de 2008

(154) TUDO OU NADA












As duas imagens são semelhantes.
A que supomos ver e o seu oposto.
Como certos seres para quem o amor é um jogo de tudo ou nada.
Querem os outros como acessórios, esquecendo o roteiro da sensibilidade: ternura, carinho, amizade, compreensão, aceitação, donde, por vezes, sim, poderá brotar profundo amor nem sequer carecendo de correspondência.
Olhando a copa das árvores, adoraria porventura voar.
Evito por isso engaiolar as aves.

terça-feira, 10 de junho de 2008

(153) SILÊNCIO

fotocantodocarlos
NA TERNURA DO ABRAÇO

segunda-feira, 9 de junho de 2008

(152) TOUPEIRAS NA CIDADE



Quando, por descuido ou a propósito, alguém pisa um carreiro de formigas, logo o alvoroço é estabelecido.
Da caminhada ordeira, organizada, resultam, por momentos, pequenas correrias, aparentemente sem destino.
Por magia, em breve é restabelecida a disciplina e o caminho retomado, com aparente indiferença pelos caídos que, também por vezes, são transportados na fila de novo organizada.
Os homens nas grandes cidades, comportam-se em regra como se dum constante pisão sofressem.
Correm para cá e para lá, pouco comunicam, e se o fazem é de puro reflexo, sem ao facto darem importância, nem tão pouco ao que dizem, atropelam-se, sem respeito ao próximo, e ignoram os caídos.
A frase corriqueira: não temos tempo !
Seja lá isso o que seja.
Como se o tempo existisse para além do aqui e agora.
Correm e daí a pouco voltam, certamente com a sensação da tarefa cumprida, ou talvez não.
Para apressar esse corre corre, construíram enormes toupeiras que ora os engolem, ora os dejectam e vice-versa, Ganham tempo: dizem !
Neste manicómio, resta ao suposto são sentar-se ao canto e tranquilamente gastar o seu TEMPO (?!) a ver passar a crise.
Implica humildade, amor à vida e quebra de ambição.
Não é fácil... nem facilitado.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

(151) NOITE MÁGICA

fotonasa
Aqui no cruzamento
Olhando o céu
ficamos a saber :
Para uma alma vinda das estrelas
nascer é morrer.

terça-feira, 29 de abril de 2008

(150) QUATRO CAMINHOS






APÓS 150 PEDALADAS,
A SUBIR E A DESCER
A GOSTO E A CONTRAGOSTO
CÁ CHEGUEI AO CRUZAMENTO:
MAIS À DIREITA NÃO DEIXAM

EM FRENTE É PROIBIDO
DO OBRIGATÓRIO NÃO GOSTO...
E SE VOLTASSE PARA TRÁS ?

MAS...DE ESTACIONAR NADA DIZEM
SENDO O SITIO TRANQUILO
LÁ TEREI DE APROVEITAR
E VOU FICAR POR AQUI.


(149) CONTROLOS


DADAS CERTAS SITUAÇÕES, PENSAVA EU JÁ NÃO HAVIA CONTROLO.
E, AFINAL, TANTO CONTROLO E TANTOS DESCONTROLADOS
NOSSA !!!
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(148) MAIS PALADINOS

fotocantodocarlos


NO CARNAVAL DESTE ANO
OS LENDÁRIOS HERÓIS DA BANDA DESENHADA APARECERAM QUASE TODOS POR AQUI .

Posted by Picasa

(147) OUTRO RECANTO

fotocantodocarlos







A velha cidade, ao Domingo, na tranquila ausência do humano.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

(146) DO CÉU

fotocantodocarlos (Varzea-Torres Vedras)

NAVES, APARENTEMENTE NÃO TRIPULADAS,
APROXIMAM-SE DA TERRA.
SÃO BELAS.

FÁCILMENTE NOS DEIXAREMOS CONQUISTAR!
Posted by Picasa

(145) HISTÓRIA E ARTE

fotocantodocarlos

A HISTÓRIA, A ARTE E O HUMOR
Posted by PicasaE MAIS ROLIÇAS NÃO PODIAM SER

domingo, 27 de abril de 2008

(144) SINOS

fotocantodocarlos

Numa passeata não prevista e para que fui empurrado por mão amiga, tomei nota da fragilidade das nossas memórias e arquivos e também como, por vezes, passamos ao lado de coisas da vida sem lhe prestar homenagem e a merecida atenção.
Desde meninos observamos os sinos e os seus encantamentos. Blão blão
Quantos de nós prestamos atenção aos seus apelos ?
Na verdade aquele blão, blão não é meramente repetitivo.
Serve, e é distinto, na tristeza e na alegria; na dor e no prazer. Chama à oração e avisa do perigo.
Quando tange, connosco fala.
E, sem querer fazer humor, chama à mesa da refeição.
Já era tempo !

sexta-feira, 25 de abril de 2008

(143) INVASORES

fotocantodocarlos (algures no oeste)

Na quebra da calmaria campestre, chegam, apoderam-se da terra e aguardam reforços.
São gigantescos troncos tubulares, cabeça ovóide e disforme, salpicando lampejos de força e poder e possuindo três enormes braços, nela implantados, que agitam a maior ou menor ritmo em atitude agressiva.
Alimentam-se do vento e dejectam energia.
Alguns anciãos, sábios e prevenidos, crêem sejam forças do mal, vindas do espaço, na busca de escravos neste planeta azul.
Outros, mais jovens, sabem tratar-se de criação humana, na tentativa gorada da conquista do conforto que, eles próprios, homens, tornaram desconfortável.
Outros ainda e tristemente a maioria, não sabem, não querem saber e não tem opinião. Limitam-se a destruir as dádivas.
E, no entremeio, aqueles gigantes vão tomando posse da terra até que o homem, no encobrimento da sua perpétua displicência, imagine e crie outra qualquer forma aparentemente menos hostil.
Por mim, sem temor, farei o percurso entre anciãos e jovens, na esperança, porventura vã, que dentre brumas e névoa surja quem em verdade nos liberte das grilhetas da auto-escravatura.

sábado, 19 de abril de 2008

(142) PALAVRAS


Trouxera um balde de palavras coloridas.
Umas belas, outras sofridas.
Lancei-as a esmo entre pinheiros bravos
Floriram papoilas, margaridas e cravos
E dentr'elas, sem cor
A ilusão e a dor
Todas sem sentido

Antes tivesse trazido
Palavras de Sol, Luz e Amor...