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sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

(206) boomerang

obséquio da wikipédia



Eis uma interessante e perigosa criação humana, misto de brinquedo e arma.
Requer extrema perícia no seu manejo, pois do preciso retorno, depende o preciso arremesso.
A perícia, em qualquer arte ou oficio, é a pedra de toque da correcta execução. Passa por rigoroso e constante exercício e também por profunda consciência, só possível quando a sua prática está prenhe de serenidade, aceitação circunstancial e sobretudo respeito pelas fronteiras e limites dos outros.
Afastado assim fica o egocentrismo e a ideia exótica de que o mundo nos persegue, quando afinal, o nosso mundo parece ser mera construção pessoal.
Referi o boomerang como poderia ter mencionado a palavra, a escrita e tantas outras acções, como até o acto físico.
Quando os procedimentos não são conformes ao estilo da época das nossas vivências, arremessamos à toa o "objecto" e, na falta da preciosa perícia, não o agarramos no retorno, ficando sujeitos a levar com ele na cabeça ou noutra parte mais sensível, quem sabe, para depois culpar o mundo e assim isolados nos mantermos.

Uma sugestão: não se usem armas tão perigosas, por brinquedos que pareçam.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

(180) A busca


Lido comigo há tempo demais e continuo sem me conhecer quanto queria, mesmo suturando lacunas no traço do perfil.
Entre os humanos não devo ser peça única sofrendo desta anomalia e, neste caso, o mal dos outros anima-me, não por regozijo, antes pela solidariedade.
A deprimência e o desanimo tomam porém posse, quando os outros, privando de algum pouco do meu tempo, logo afirmam que me conhecem bem, sou transparente, previsível.
Quedo perplexo pela perspicácia desses génios capazes de penetrar a minha mente em corredores para mim inatingiveis.
A inveja, de mim tão arredia, faz da deixa a sua insidiosa entrada, espicaça-me em silencio, por sorte quebrado pelo murmúrio do leal discernimento.
Em duas penadas este deixa liquida a questão.
É a riqueza da diversidade. Entre os humanos pululam os que nada sabem de tudo o que sabem e ainda os de má intenção. Se eles não existissem, como distinguiriamos os outros ?
Constatada a ausência de minha falta, volta a serenidade ao meu reino só inquietada pela continuidade da procura, na tentativa, espero não gorada, de me encontrar antes que me perca de todo.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

(173) Ofensas

Raros feed-backs obtenho destas minhas escrevidelas e, estou seguro, se um gráfico de barras me desse a elaborar, obteria sem surpresa duas colunas notáveis: A dos que não me entendem e a dos sem opinião. Esquecendo estes, o mal dos outros é porventura o meu demérito.
Obteria também outras colunas de reduzida dimensão. Dizem ser só choradinho, não sabem onde quero chegar, é só desanimo sem fé, e por ai fora...
Também foi notada ofensa por omissão, para meu espanto e sem qualquer remissão.
De meu feitio não é ofender seja quem for, nem sequer inimigos, que sem saber os posso ter.
Para mim sinto e faz sentido a leitura do que escrevo, sendo o facto confirmado quando por vezes passeio nos escritos do passado.
Não sendo estilo ou forma o meu objectivo, a pretensão se reduz ao relato dos olhares e sentires na vida de cada dia, tentando nisso evitar a mascara ou traje de fantasia.
Nem o espelho me deprime, esse falso verdadeiro, na certeza de não devolver minha imagem por inteiro.
Mas bem, não querendo ofender alguém, despeço-me até pro ano.
Aí ficam as flores.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

(170) Hoje! ... e depois

Em tempos, alguém, por afinidade a mim chegada, falando de encontros "de amor" (notem-se as aspas e que se lhes dê a importância que tenham) deixou-me o sino na orelha.
Disse então à laia de sentença:
- Nessas ligações, nós, mulheres, pretendemos uma situação enquanto vós, homens, lhes basta uma relação.
A tradução, óbvia à época, implicava o homem viver o momento e a mulher também, esta porém com um olho no futuro, muito naturalmente ressalvadas as excepções que emprestam crédito às regras.
O facto acabava por minar a união pela incompatibilidade de interesses e seria o contexto social o responsável maior ao atribuir à mulher o elo mais fraco.
E não só pelas diferenças biológicas também pela sensibilidade, dependência financeira, critica à prática sexual fora dos compromissos contratuais do casamento, e muitos outros pequenos nadas, então representando tudo.
Vivem-se hoje tempos de situação inversa.
O homem, porventura por semelhantes razões, deixou de ser o falso elo forte. Passou a evidente elo mais fraco, até porventura descartavel, perdendo por bem a insensata arrogância machista.
E não deixa de me espantar que entre gíria de mulheres ainda se ouça: "vê lá se agarras um, de preferência rico", regredindo ao passado e a garantir o futuro, hoje, tão independentes que são.
A menos seja excepção para manter a nova regra. Pode ser.
Ah, já esquecia, a foto não é do paraíso. Não passei por lá !

quinta-feira, 31 de julho de 2008

(169) Exterminadores



A desinfestação resulta duma sociedade onde impera a lei da sobrevivência e não fora o desequilíbrio de forças, desiguais e mal distribuídas, seria lógica e justa, na medida de ser esse o impulso de qualquer ser vivo.
Acabam por subsistir não os mais invasivos, antes os aparentemente melhor protegidos pela natureza.
Os supostos donos da razão e do polegar oponivel.
Sempre sob o baluarte do efeito épico ou ilustre, de cognome os bonzinhos, estende-se a exterminação até aos da mesma espécie.
Nas Cruzadas era intento expulsar os infiéis; na Alemanha apurar a raça... e antes... e depois... e qualquer dia.
E tudo isto porque o cordeiro, a beber a jusante, contamina a água que o lobo bebe a montante, numa visão egocêntrica do próprio umbigo.
Todavia a teclagem já vai longa e o intuito era alertar para um solitário especialista da exterminação.
O ser apaixonado com uma visão do amor eterno e contagioso, exigindo na permuta igual paga, esquecendo do outro a diferença, a mediação, sentimentos paralelos, não escutando suas falas, nem interpretando seus escritos.
É um perito no uso de produtos altamente sofisticados e dolorosos, com suaves nomes de perfume: obstinação, perseverança, fantasia, ilusão, teimosia e muitos outros.
Não conseguindo a totalidade do amor, actua e, além dos danos colaterais, danifica esse amor, vassoura o sexo e a amizade, esquecendo ser esta a fonte, onde, na essência, vão beber todos os sentimentos nobres.
E, bizarro porém histórico, após o morticínio, considera-se dono da razão e candidamente inocente.
Cuidem-se !!!

quarta-feira, 16 de julho de 2008

(164) Recados

Não lamentes.
É o primeiro passo na descrença.
E a verdade sempre nos confunde.
Eu sei.
Aprendi noutras lutas, noutras batalhas, noutras derrotas
Perdendo o medo e com ele a esperança.
Deixei de ler. Deixei de chorar.
Contentam-me os despojos da memória,
essa implacável amiga.

Há muito não te dou um abraço. Fica bem; na luz.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

(161) Amores imperfeitos

Não via o Julião há dois anos.
Gosto deste tipo e sinto o seu fado, talvez por ser capaz de lhe vestir a pele.
É ele assim um rapaz da minha idade, de muita pedra partida,.
Quando levou a pancada da viuvez, deambulou e, nos anos seguintes, fechou-se nele sem tentar sequer, por ser tarde ou não, procurar companhia.
Meio destroçado, parecia contudo bem assente na sua cimentada solidão, continuando a usar velhos remos, singrando, horizonte à vista, no mar do resto da vida.
Dizia que para ele o sexo morrera, acrescentando “e já era tempo”.
Neste reencontro leio tristeza no olhar, mais quebrado, esfomeado de se fazer ouvir e, de meu hábito, ali estava eu pronto a saciá-lo com o pão da minha escuta.
Finalmente conhecera alguém e, duvidoso do próprio desempenho, foi sem convicção acabar na cama, não propriamente para dormir.
Aos poucos acabou por se convencer que afinal o sexo apenas hibernara, surgindo agora em edição envelhecida, quiçá melhorada.
Entendiam-se. Dava certo. E da habituação passaram ao teste das compatibilidades e afinidades, coisa que o Julião entende correu na inversa e deveria ter sido o primeiro passo.
E, para não estender o relato, de imediato descrevo o sintético perfil que dela traçou .
Sensível e crente, demasiada crença, aceitando sem discussão ser o homem rei da criação.
Grande apreciadora de touradas, não vendo nelas a crueza do acto e aceitando que afinal os touros estavam aqui para isso.
Na roupagem, fervorosa devota dos Vuiton, Gucci e outros que, impondo a moda, não dão lugar à individualidade.
Senhora e sonhadora de andanças e viagens em que muitas andara.
Amante da mesa, perfeita no detalhe, convicta que ali se cria a identidade e, por tal, com alargada convivência social.
Desejosa de alargar o conhecimento da relação a familiares e amigos, como se, em idade tão adulta, os outros tivessem algo a ver com o encontro dos dois.
Ansiando por uma vida em comum, coisa arredia do Julião que, na verdade, nem já conseguia dormir acompanhado na real acepção do termo.
Se aceitar este sintético perfil e situar nele o que conheço deste meu amigo, poderia dizer, também sinteticamente: seria como se estivessem na linha do equador, ambos a alta temperatura, mas diametralmente opostos; estilos de vida arreigados, óbvia e praticamente inalteráveis no declínio.
O homem de vida simples que é o Julião, reconhece até ser possível que o ideal more no outro extremo e nem uma palha mexeria para que ela mudasse mesmo viesse isso a ser possível. Não queria, conhece a vida.
No seu âmago e por seu feitio, gostaria continuar amigo.
Nunca gostou de morder a mão que lhe faz festas.
Ela não o permitiu, acusando-o de brincar com os sentimentos dos outros e ser pessoa de usar e deitar fora.
Foi a gota de água e a lamina afiada que introduziu a duvida.
E questionou-me ele:
—Será essa a imagem que passo aos que atravessam a minha vida ?
Dei-lhe um abraço, beijei-o e disse-lhe:
— Não, não és assim. Eu sei e tu também.