quarta-feira, 27 de setembro de 2006

(37) A MAÇÃ


TENHO DE ME QUESTIONAR:
A MAÇÃ ORIGINAL JÁ TERA LAGARTA ?

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

(36) MOSCA II


Sim, este é o meu olho !
Hoje, dia de saída, não estou no emaranhado pesadelo, mudado em grande mosca e na ânsia de voar além das grades.
E, com agrado e sem menosprezo pelo magnifico olho da mosca, vou apontar-lhe um senão.
Da paleta universal não retirou o matiz e, o repetir das imagens, não garante vantagens.
Se fosse mosca, calcula, nem se me dá na lembrança, quando olhasse para ti, meu amor, a ver-te sem cor, repetida, como névoa esbatida de quem anda fugida.
Quero ver-te toda inteira, nesse teu jeito de ser, com esse brilho nos olhos onde verdejam os prados e o lago de água mansa onde navegas na esperança.
Como podia encontrar-te, repetida e sem cor ?
Mergulharia na dor de perder o teu amor!
E, depois, outro senão.
Será que a mosca tem coração ?
Lá ter terá, certamente.
E cabe nele a ternura, a compaixão, o amor e até talvez a loucura ?
Na dúvida, digo que não.

(35) O LOBO MAU

Não tenhamos dúvidas
se fomos crianças
se fomos amados
foi com intenção ternurenta que nos embalaram, contando e recontando, entre outras, a história do lobo mau e do capuchinho vermelho, mergulhando a nossa candura de então nesse mundo do faz de conta.
Aí nessa profundeza onde, separados os bons dos maus, se esvaziam os espaços intermédios. Mais ou menos bom ou mau não existiam.
Vamos crescendo nesse encanto, sem nos apercebermos do seu desencanto.
É óbvio que ainda hoje, na vida real, há por aí "lobos" a comer o capuchinho e a avozinha e, se apetite lhes restar, ainda se aproveitam do cabaz da merenda.
O verdadeiro sacrificado, no meio do turbilhão, parece ter sido o lobo.
Viu a sua reputação arrastada na lama, não que isso lhe importe por certo, quando no fim apenas cumpre o seu fado e o lugar a ele destinado nesta prisão enorme que é o nosso planeta.
Mais um a sofrer do preconceito.

sábado, 23 de setembro de 2006

(34) FAZER AMOR


Vamos fazer amor...
Coisa vulgar de ouvir, no recato de qualquer conversa intima, no autocarro, em bares, cafés e discotecas ou na invasão sistemática com que o pequeno ecrã castiga a nossa casa.
E aprofundando a pesquisa, mesmo sem recurso ao filme porno, podemos citar algumas frases tais como:
Fiz amor
no chão da cozinha
na banheira
no tapete
em cima da mesa
com o gato a ver
Entre uma infinidade de outras, e até por vezes na cama.
A moral que tirei da história:
O amor fabrica-se, sendo apenas necessário alguma imaginação e a presença mínima de dois artífices quiçá bastando um se de génio se tratar.
Ora isto causa-me grande confusão.
Havia arrumado na minha gaveta dos conceitos, quase conclusivos, a aceitação de que o amor e o sexo pouco tem a ver um com outro E se, por casualidade, amarmos verdadeiramente alguém com quem temos sexo, isso terá de ressaltar da relação no período que decorra entre dois orgasmos não seguidos. E aqui lhes digo, se o resultado é positivo, então sim é a excepção em que o amor e sexo se aliam.
Não se faz amor, deixamos fluir o amor, somos dois em um.
Na verdade teremos de aceitar que o sexo é servidão imposta pela mãe natureza que astuciosamente criou esse impulso em todos os animais (com o estimulo do prazer) como garante da renovação. Maldosamente vamos dando a volta e usamos os contraceptivos. Como não queremos prescindir do prazer e simultaneamente evitar a vileza, mascaramos então o acto, praticando-o abusivamente, muitas vezes, em nome do amor.
Amor é outra coisa. O amor é dádiva. Nasce nos lagos profundos da nossa alma e curiosamente não se fabrica.
Ou se tem, ou se é pobre!
Não quero confundir amor com sexo. Vou manter os meus conceitos até porque também amo algumas árvores e não me vejo a fornicar qualquer delas.
E que isto não seja preconceito !

segunda-feira, 18 de setembro de 2006

(33) SINAIS DOS TEMPOS

Dizem que o filósofo disse:
Penso, logo existo.
Eram outros os tempos. O tempo, generoso, concedia tempo no tempo e o homem era porventura menos ambicioso.
Pesem embora as vicissitudes de que todas as épocas são prenhes, o homem permitia-se parar, rodear o erudito e escutar o seu dito ou, mesmo que de silencio se tratasse, meditar, atapetando o caminho da reflexão.
No tempo de hoje, e em abono de suposto conforto, o sistema agilmente se perverteu e no primado da busca do supérfluo, o essencial é secundário.
Tu tens ? Eu também tenho de ter... não importa o que seja.
Os próprios eruditos, creio que existam alguns, enviesam e aproveitam-se da credulidade dos seguidores na peugada do mesmo objectivo.
Assim nestes tempos de verdadeira dúvida na busca, de insegurança pessoal, haveria
necessidade de converter o dito
Viesse o filósofo a este tempo e decerto aconselharia::
Penso logo hesito.
E aos verdadeiros pessimistas:
Penso logo desisto.

sexta-feira, 8 de setembro de 2006

(32) MOSCAS

Deixem-me adivinhar ! Bichinho chato e nojento!
Pois, pois, eu também pensava assim e ao ouvir o zunido para a guerra me armava (pufs-pufs e mata moscas), sabendo logo à partida estar de causa perdida.
Mas um dia lá cismei, da arma passei à lupa e na pesquisa mergulhei.
Miles de espécies, miles de formas, miles de cores.
Belo equipamento, olhos multifacetados, máquina de voar completamente computorizada e com soft a garantir perfeita e segura acrobacia, grande estabilidade no poiso, graças ao número de patas e sua fofura e ainda, pasmem, extrema elegância e finura na alimentação, sempre sugando, pela palhinha, a matéria que os seus pés gustativos aprovam. Completam, logo,logo, com apurada higiene íntima.
Predadores aos montes, aéreos e terrestres e, nestes, lugar cimeiro às aranhas e seus engenhos de pescar
Criar, destruir, criar, destruir e por aí fora...
Todavia, e malgrado este desbaste, a capacidade e rapidez reprodutiva bate todos os recordes, deixando inibido qualquer enfatuado macho latino. Os ovos, depositados em matéria orgânica a decompor, eclodem passadas 24 horas.
Este porventura o segredo da sua capacidade de fuga à extinção
Além disso elas ganharam lugar à nossa mesa, não só planando e pousando na comida, mas também integrando o prosear:
· pareces uma MOSQUINHA morta
· estavas como MOSCA no mel
· come a sopa, olha a MOSCA
· o meu chefe hoje estava com a MOSCA
· que raio de MOSCA te picou
e até na política se metem. Ah,Ah ?? Não se riam, pois isto afirmo sem rodeios; a experiência é pessoal e a fonte fidedigna. Foi o caso que nas últimas eleições, cumpridor e no intento de acertar, mas indeciso no voto, pedi conselho a aclarado técnico na matéria. Estivesse eu descansado, respondeu, votasse até de olho fechado e plantasse a cruz aos fados da sorte, convicto ele estava que a trampa era sempre a mesma, só as MOSCAS mudavam.
Dizem ser o dito corrente, só que ao corrente eu não estava e, embora reconheça às moscas esse mau hábito, tenho aqui de confessar, ser a metáfora desagradável para elas.
Aprendi que são vitais, esclarecido que fui.
Sem moscas a terra estaria coberta por plantas e animais mortos.
Tenho de fazer agora uma sutura, por estar decerto a abrir feridas nos poucos leitores dos meus escritos, tendo alguns já comentado a minha aparente solidão.
Para já os descanso, em solidão eu não estou, tenho o quarto cheio de moscas. Em vez de rede mosqueira, vejam só, gradearam a janela. De erro crasso se tratou, quase cabe minha cabeça e as moscas bem transitam.
Aos leitores ainda atentos, reitero as minhas desculpas, mesmo sem ser meu intento tenho aqui de terminar.
Chegou o meu controlador.
Topou que estou com a MOSCA e atascou-me dose dupla para ficar a dormir.
Dormir ??? Claro seria óptimo, não fossem os pesadelos.
Logo fico enorme MOSCA imune aos predadores e a esvoaçar pelo quarto.
Tentativa malograda de passar aquela grade... e voar em liberdade.

segunda-feira, 14 de agosto de 2006

(31) DE CABEÇA PERDIDA

O Eduardo nunca fora de grandes ou continuados amores. Cerebral, supervisionava.
Dizia ele, pisava levezinho não fosse atolar-se em areias movediças.
Dizia-lhe eu, para não brincar com o amor, sobretudo o dos outros.
Mas ele petiscava amor, alheio ao perigo da intoxicação.
Era no fundo um poeta ! Amava o amor !
Idealista, na busca do improvável, diria do impossível.
Disfarçava as suas ilusões em banhos de lógica e cinismo. Sofria...
Amante era do belo e passava largas horas em contemplação.
Sorte ou azar o seu, certo dia, refastelado numa esplanada, admirava o sol, nu e alaranjado, no horizonte a mergulhar em lençol azul cristal.
Alguns flocos de nuvem, tal espuma, emprestavam vida ao mergulho.
Minutos ou eternidades depois, entre essa maravilha e os seus olhos, estacou uma linda mulher, sorrindo.
Conheço o Eduardo. Sorriso retribuído, convite à mesa, uma bebida, curiosidade tremenda em saber, condição essencial, se além da beleza aparente, ela seria também uma mulher linda.
E, de blá-blá em blá-blá, o Eduardo estarrecia pelo imprevisto. Pensamentos, ideais, afinidades preenchidas. E sobretudo perfeita beleza interior.
A Diana, de seu nome, mulher com capacidades e qualidades a permitir-lhe, finalmente, pisar qualquer tipo de areia, afoito e sem receios.
Bebidas esgotadas, disse-lhe um “não fuja” e foi ao bar já ansiando ao retorno.
Passados alguns minutos de impaciência voltou à mesa e à desilusão.
O sol não deixara rasto, a água era agora azul negro.
A Diana desaparecera !
Perdeu a cabeça...
E desde então, de cabeça perdida e sem ver, ali vai com frequência, no mínimo para tentar separar a realidade do sonho.

sexta-feira, 4 de agosto de 2006

(30) CONTRADIÇÕES

No campeonato da vida na terra e neste ano de graça, impensável será a supressão da maioria dos sons, verdadeiro exército na agressão ao complacente e doce silencio.
À sombra de conforto, rodeou-se o humano de apitos, silvos, campainhas e buzinas, agudos e graves correndo a escala, condicionando reacções e condutas.
Estou nesta, e, sendo feros os carcereiros, sem esperança de escapar antes da pena cumprida.
Parto de vantagem. Tenho boa memória e, por tal, apesar de serem muitos já não salivo quando os ouço e corro de imediato para evitar a bisagem.
Trim e trim (telefone fixo) e já estou com ele na mão. Digo estou (sempre que posso evito o alô).
Uma voz de mulher, em tom baixo e sofrido, pergunta por não sei quem. Constato e declaro o engano. Algo nos deixa suspensos... conversamos. Sou modestamente sociável e urbano, estatuto que quero manter.
Abrimos em banalidades, creio eu. As banalidades são por norma os pilares da vida e, vez em vez, entrançam enleios.
Parece ter sido o caso. Poucas banalidades após, e por algum passe de magia, aquela mulher de trinta anos desbobinava a um desconhecido o filme da sua vida de que retirara as cores.
Carente, sem amigos, afectos incompreendidos por selectividade e exigências no retorno, não licenciosa mas licenciada, descrente do sol e da lua, numa perfeita solidão interior transparente, embrulhada em rendas de anseios e desilusões.
E não vivia só, rematou, tinha um peixe, um desses seres do belo mundo do silêncio.
Questionei... confrontei.
Fi-la medir e sentir a sua relutância à verdadeira entrega, o quanto preferia a amargura à ternura e, no entanto, quando o compromisso não existe, abre a sua intimidade a um estranho num espaço roubado a um engano, estranho que a aceita e compreende.
Depois pequei. Acredito que as palavras nos embalam. Dão quase tudo. Necessitam quanto a mim. do tempero dos momentos mágicos: o toque humano, real, na pele!
E sabendo ser boa a relação com os pais, coloquei a ingénua questão:
-Porque não se expõe a seus pais, como o fez aqui e agora a um desconhecido ?
A resposta foi curta e elucidativa
-Ah, os meus pais já andam pelos sessenta anos não entendem destas coisas.
Aqui balancei.
Se lhe digo a minha idade desnudo a sua ilusão e aclaro o preconceito. Se não....

Foi um blão, blão que decidiu. Também não salivei. Era a porta a chamar por mim.
Aproveito o ensejo e despeço-me. No meu intimo fica o desejo que aquele preconceito não lhe ceife os poucos grãos que lhe restam da sua seara de amor.

domingo, 30 de julho de 2006

(29) O TESTAMENTO

E ali estava eu com o pé esquerdo pousado naquele belo e fofo solo azul celeste, polvilhado de algodão.
Êxtase e surpresa, não tanto pela inclusa sugestão da morte, mais pela benevolência da paradisíaca sentença.
Todos vamos cometendo erros na travessia e temeroso andava eu pelos fogos do outro lado, que com o calor não me dou.
Logo me passou na mente a ideia peregrina de, aproveitando o momento, lá pousar o outro pé e dar uma espreitadela.
Nessa querença e com crença, meti o pé direito e no consolo de o pousar... acordei !
Acordei aos pés da cama virado. Belisquei a coxa e doeu. Era tudo encenação e travessura de sonho bom.
Dei a volta completa e, paciente, aguardei o regresso da alma que, de seu hábito, tardava a voltar dos devaneios nocturnos para tomar conta deste corpo e prepará-lo para novo dia que de sol era, já alto e vestido a rigor.
Não deixou de ser belo o sonho enganador.
Passe a lisonja da absolvição, não deixou também de ser aviso da certeza do evento.
À cautela, e sem descuido, irei lavrar testamento dos dois lotes que me restam:
- o dos bens pela natureza emprestados e no percurso moderamente me serviram, vou legar a quem deles cuidar, recomendando o bom uso
- o do amor que me deram, encheu meu coração e deu luz ao tal percurso, esse, que me desculpem, decerto vou precisar e comigo vou levar

segunda-feira, 26 de junho de 2006

(28) O BRINCO


Na paragem do autocarro, à minha frente e conversando, aguardavam um homem e uma mulher.
Ele, rapaz da minha idade, centenário que estou quase.
Em abono da verdade, fintando falsas modéstias, na aparência lhe ganhava.
O estilo, ouvi depois, autentico macho latino, coisa de mim arredada.
E a olho desarmado, pese o contraditório, parecia Sancho não Quixote.
Tudo certo, somos diferentes, não fosse o belo discurso a cair sobre um cartaz, ali mesmo à nossa frente, dum actor cá do sitio, de orelha abrincoada.
Dizia o homem assim: O quê ? Aquele também virou ?
E a mulher respondeu:
Não tem nada de mais o mê pai também usava brinco
- Ora, ora, eu uso as pendurezas noutro sitio.

Contra aquele preconceito, funcionou de imediato o meu:

Pouca inteligência, só embrulhada em bom senso. E o bom senso ali ditava que o acessório não garante o atributo. Fosse essa a regra teria de ser notado que a mulher usava calças.

E a tentação foi questionar.

Um sujeito atrás de mim, abrincoado também, evitou a minha entrada, e foi curto e grosso: Oh meu! Se calhar só te serve para pingares os sapatos e mesmo assim quando não queres.

Não havia necessidade !
Mas lá que foi merecido, foi...
E a dúvida me ficou se o sujeito da lição aproveitou.

Acredito que a excepção a “burro velho não aprende”, não vence no caso contado.
.

domingo, 11 de junho de 2006

(27) CONFISSÃO

PRECONCEITOS ? SIM, CONFESSO:
Eu tenho...
E não me consola saber que o verbo se conjuga por inteiro:
Tu tens, ele tem e também são verdadeiros os plurais.
Humildade, aceitação da diferença, evitam a fácil critica.
Nesse pisar descalço, alguns se irão perdendo, vindo outros por acréscimo..
E o segredo será conseguir que as percas superem os ganhos




sexta-feira, 9 de junho de 2006

(26) AS PORTAS E A PORTA

Estranho amigo do peito aquele.
O Ricardo era assim.
Metido consigo, cozinhava as suas dores em lume brando e partilhava comigo o cozinhado.
Sofrimento e prazer, como sempre, tudo ao molho.
A olhar a bica e os pasteis de nata, filosofávamos sobre o aparente sem sentido do sentido da vida.
Filósofos de água a ferver, como ele dizia.
Naquele dia um lampejo de entusiasmo minava-lhe o semblante por regra sisudo.
Espanto o meu, habituado que estava à sua fronha cerrada.
Logo confessou e descodificou.
Era para ele a vida um grande jogo.
O prémio assegurado: a morte !
O jogo era iniciado perto da grande arena. As regras, simples e fiáveis. Oferecidas eram imensas portas, correspondendo a outros tantos percursos. Concluído o percurso ou em qualquer passo do mesmo, podia o jogador regressar à arena e escolher nova porta, nova caminhada, sabido porém que uma delas era a última, a porta maior, a sem retorno.
Tão diferente e tão semelhante aos romanos jogos ali então em uso. Nestes a morte resultava de violência imediata que alguma força ou perícia podia apenas adiar.
No jogo do Ricardo, as dores e o sofrimento porventura estariam lá. Seriam contudo mitigados por uma ou outra centelha de felicidade emprestada de algum dos percursos.
Em confidencia me disse que andava nisto há muito, usara e abusara, impetuoso, sem hesitar na escolha, nem sequer temido ou desejado a porta grande.
Saíra hoje do último percurso e decidira abrir outra.
Poucas restavam.
Após tanta caminhada, de sucesso e insucesso, de ganho e perca, de amor e ódio, gostaria de saber, dizia ele, qual delas era a porta grande.
Estava cansado. Apesar da pedra pisada fora privilegiado, vivera com intensidade e bebera de muitas fontes.
Não comentei tanta excitação e entusiasmo.
Uma ligeira brisa trouxe o silencio, acompanhado de algumas estrelas. Aceitaram o convite para a nossa mesa. Entre todos, sem comentar, fomos trocando as nossas verdades.
Algum tempo depois o Ricardo, sem falar e com estrelas nos olhos, deu-me um abraço emotivo, beijou-me, e foi...
Ele era assim.
Olhei, triste, os pastéis de nata que sobravam.
Sou guloso, comi-os.
Não tinham gosto, antes alguma amargura.


O Ricardo não voltou mais

domingo, 14 de maio de 2006

(25) ROSA

A Rosa foi em menina botão de encantar. E assim, sem espanto, ficou mais bela a desabrochar
Metida consigo, sonho compulsivo, ao sol queria luar.
Gostava da noite, quieta e calma, e desse luar a banhar a alma




Depois já mulher, por desgosto de amor,
perdeu-se na noite
e no sonho vivido





















E a desfolhar por lá tem andado no labirinto do seu triste fado
Tão perdida que está
já pensou em voltar
Encontrar o caminho e ao sol retornar
na esperança vã do passado encontrar


terça-feira, 2 de maio de 2006

(24) VOAR

PARA LHE VER O ROSTO
VOU TENTAR VOAR
DEPOIS VOLTO

Como prometido, voltei.
Não sendo voar tarefa de somenos, foi todavia o esforço compensado
Cheguei ao topo em plena noite de luar. Essa estranha força e a ligeira brisa, emprestavam brilho e beleza à moldura verde daquele rosto. Aqui e ali pérolas de orvalho.
Porque choras ? Perguntei.
Confidenciou-me ser a primeira vez a receber visita humana não hostil e tão próxima. Havia visto outros, ao longe, montados em estranhas aves, lá onde não se enxerga o rosto.
Confidenciou também a dor da sua imobilidade, quebrada tão somente pelos fortes ventos. E foi com sonho e tristeza que recordou os tempos em que, frondosa, abrigava os ninhos e as aves, seu deleite de então. Confiou-me assim a sua solidão e o sonho de poder voar, justificando a forma estranha do seu corpo pelo esforço das vãs tentativas de o fazer.
Trocados os nossos pesares, aconchegámo-nos num doce e longo silencio.
Logo, logo, passada essa pequena eternidade, no afago da despedida, senti que se aproveitava do orvalho para disfarçar o pranto e já no solo deixei o meu abraço naquele tronco sofrido e rugoso, forte e sensível.
Prometi voltar para continuar a ligar a sua solidão à minha, quiçá ficar.

segunda-feira, 24 de abril de 2006

(23) O COAXO

Sorrateiramente, do repleto e variado cofre da mãe natureza, saquei esta pequena jóia, na esperança de poder estabelecer algum contacto.
Não sei coaxar. Aprendizagem a inscrever num imenso rol de prioridades, porventura a não cumprir, não tanto por falta de interesse, mais pelos limites impostos pela vida.
E ali ficámos, cada um no seu canto, expectantes.
Ela aparentemente serena, confiante não tanto.
Imobilidade, passividade e mutismo
Decorridos alguns minutos resolvi devolvê-la ao seu charco.
Então, e enquanto se abrigava na terra, coaxou.
Um misto de alivio e desabafo, tipo
“Safei-me. Os humanos são loucos mas nem todos violentos.”
Na dúvida, decididamente, tenho de aprender a coaxar.

sábado, 22 de abril de 2006

(22) A VERDADE NUA















O conhecimento da verdade é, em princípio, do interesse colectivo, levando muitos à consulta da bola de cristal, pese embora o risco dela não ser tão límpida e transparente quanto sonhada.
Por mim, como muitos outros, permito que a minha verdade e a certeza andem por aí de braço dado, porém acompanhadas da dúvida e seu benefício, cujo serviço se mostra de grande utilidade ao permitir sensatez e comedimento nas avaliações.
E isto porque penso ser indispensável a chancela da dúvida, mesmo se a verdade se reveste de aparente autenticidade.
Vejam:
Há dias, grande ajuntamento à beira da muralha, alguém se debatia, clamando por socorro. Um chapão na água e o sinistrado é salvo.
Quase todos aclamam o abnegado herói.
Duas pessoas porém conheciam uma verdade diferente.
O salvador… e eu que o empurrei.
Insisto. A verdade raramente se desnuda !

sexta-feira, 7 de abril de 2006

(21) FOLHA MORTA


DIA A DIA, NO PRESENTE
NUMA FOLHA DO FUTURO
VOU ESCREVENDO O MEU PASSADO
UM DIA ESCREVEREI: NADA
FICA A OBRA INACABADA

(20) A BESTA

Alguém me chamou de besta !


Meses antes via em mim um ser bonito (leia-se sensível).

Foi útil a intenção de raiva ou insulto.


Permitiu questionar-me:

Afinal somos aquilo que pensamos ou gostaríamos de ser ou somos apenas validados pelos outros nos seus espelhos mutantes?

(19) A GARRAFA

Aviso: contem elixir da vida (0% álcool)
Dilema: estará meia cheia ou meia vazia ?
Meu amigo, três motivos me deste para este artigo:
Os teus posts A teoria da garrafa O teu comentário à missão impossível
Misturei, agitei, bati e... atrevi-me: provei.
Pergunta a que me soube! No fundo é uma mistura de sofrimento, dor, amargura, afastamento, presença, serenidade e luta, repouso e agitação, a que houve o cuidado de aplicar uma boa dose de faz de conta e, porque não, de afecto, amizade, amor, para que borbulhe quando ferve.
E não me parece difícil encontrar tudo isto, e muito mais, num único ser. Antes de sermos empurrados para esta colónia penal, somos devidamente abastecidos e apetrechados não só para utilizar toda esta panóplia de ferramentas mas também para sentir os efeitos do seu uso. E o uso deste arsenal se imoderado pode destruir, manter, endurecer ou...
Cá por mim, sou guloso, tenho-me servido de quase tudo, e acumulo com alguma humildade, o que, apesar disso, me deixa a dúvida quando olho à volta.
O sentimento é de egoísmo ou de privilégio ? Afinal neste mar de sofrimento, pese embora o mau piso e as pancadas sofridas, ainda aceito e vou mantendo a cabeça fora de água, De certo, e apesar de, sou privilegiado!
Será, como dizes, que ainda me resta a esperança de ser ouvido (lido) ou aquilo é apenas o resultado da tal humana condição e da necessidade de conseguir companhia para o meu grito ?
A dúvida é mais uma das ferramentas que vamos usando.
Ah, e já agora, a garrafa para mim, e hoje, está meia ch
eia.

sexta-feira, 24 de março de 2006

(18) MISSÃO IMPOSSIVEL

Não resisti a colocar esta imagem. Não terá a ver com o texto.
É contudo bela e repousante e no seu movimento assemelhará o paraíso onde decorre a pequena história de autor desconhecido, colhida num livro de humor.
"S.Pedro acolheu uma boa alma que de imediato lhe pediu ocupação.
Toma esta colher, meu filho, e vai despejar aquele oceano.
Passados cinco mil anos a alma, missão cumprida, solicitou nova tarefa.
Toma este garfo, meu filho, e vai aplanar aquela montanha.
Sete mil anos após, cumprida a missão, aquela alma rogava nova tarefa.
S,Pedro, já agastado, exclamou: Olha JESUS, se queres trabalho para toda a eternidade vai à Terra e tenta espalhar o amor entre os Homens."
Sorrimos, encerra verdade e tem graça ! Mas que é triste, não resta dúvida

quarta-feira, 15 de março de 2006

(17) AOS AMIGOS DO CORAÇÃO



A MINHA ALMA É O MEU JARDIM

terça-feira, 14 de março de 2006

(16) SAUDADE


CHOREI TANTO... TANTO... TANTO...
SEM QUEIXUME, SEM LAMENTO,
SEM PRANTO, SÓ SENTIMENTO
CHOREI TANTO... TANTO... TANTO...
QUE SE A MORTE ALI PASSASSE
TALVEZ ATÉ ME LEVASSE

(15) A MASCARA

Se observarmos uma criança nos seus primeiros anos de vida deparamos com a possibilidade de espreitar a pureza da alma nessa janela aberta do seu corpo. O gesto, a postura, a lágrima e o sorriso, transmitem, sem subtilezas, a verdade do que ali se passa. O corpo é então o verdadeiro espelho da alma!
A vida/morte e o seu faz de conta, logo se apoderam dessa candura e lhe acrescentam servidões próprias do existir em relação.
Cada um de nós cedo é presenteado com um baú de mascaras para uso frequente, sobretudo nas ocasiões em que o sentimento não acompanha a circunstancia.
Decerto reconheço alguma utilidade na utilização duma ou outra mascara que vou evitando usar, pese embora os amargos de boca que a sua não utilização com frequência acarreta.

(14) OS NUS

E OS MORTOS

domingo, 12 de março de 2006

(13) FELICIDADE

Num daqueles dias em que corpo e alma não se entendem, vagueava a tristeza por aí, quando algo insólito quebrou o silêncio. Longo trinado chamou minha atenção! Olhei e, ali, a sete metros de altura descortinei um bico amarelo a adornar uma cabeça preta de olhinhos postos em mim, expectante como quem pede resposta..
Foi grande a tentação e, no melhor que pude, respondi, forma desajeitada e modesta, a pretender imitar tom semelhante.
Trinado cá, trinado lá, ali estivemos, filosofando diferenças e semelhanças, tempo, sem tempo, afinal companheiros na representação do faz de conta da vida, sincero e tranquilo.
Em dado momento um bater de asas e o meu interlocutor lá se foi, numa mancha negra esvoaçante, turbilhão efémero de vida, na busca de outros destinos outros encantos, outro alguém que também o compreenda.
Uma pequena chama de felicidade havia permitido descolar-me de problemas impostos na busca do supérfluo, quando o essencial morava mesmo ao lado.
Raro nos lembramos que nus nascemos e assim partimos e a verdadeira felicidade poderá ser, aqui e ali, a partilha destas breves eternidades por empréstimo e sem posse.

quinta-feira, 9 de março de 2006

(12) REPOUSO


ÂNSIA DE ENCONTRAR PAZ
NÃO DAQUELE QUE JAZ
ANTES NA SERENIDADE
DA ETERNIDADE

(11) A LUTA

OUTRA LUTA SOLITÁRIA PELA SOBREVIVÊNCIA.
Os humanos agem, habitualmente, de forma diversa.
Complicam.
Subjugam, criam, abatem, retalham.
Ao devorar requintam.
O prato, o talher, o vinho certo, a especiaria, o molho.
Também habitualmente fazem-no em grupo. Sorriem.
Na essência, pese embora disfarçada de poder, a mesma trágica servidão.

terça-feira, 7 de março de 2006

(10) DO CORAÇÃO




Ao Luís
No cair da folha.
Ajudou-me a sentir a solidão dos outros e assim situar a minha.



Em menino o coração era para mim algo que no meu peito fazia pum-pum, com mais ou menos violência, segundo as minhas correrias.
Já então, como agora, era também coisa que tinha a ver com mimos e afectos. Adorava o xi-coração. Era tocado.
Depois, e no percurso, aprendi que, a final e na sua essência, é um músculo valente, ou um valente músculo, capaz e responsável pela distribuição metódica e regular do fluido vital.
Mas o sonho de menino não foi de todo desfeito pelas agruras do caminho e do conhecimento.
A subtil consciência (talvez num arremedo de gratidão) empresta e atribue ao coração toda uma panóplia de emoções, fazendo dele fiel depositário da ternura e do amor, do sacrifício e da entrega.
É normal ouvir dizer que um ser tem bom coração, quando em prática de boas acções, sendo as más relegadas para o fígado (então o sujeito terá maus fígados). Também verdade parece que esta quimera não será igualmente vivida por todos.
São privilegiados os seres que no fosso do sofrimento mantém o espírito livre, tentando substituir por ternura, compreensão e amor a nefasta raiva, desespero e ódio.
Esses vão encontrar no coração o sentido do sem sentido da vida.
Perguntarão vocês o que tem isto a ver com o LUÍS.
Creiam que muito!
O Luís é um dos seres, que de há muitos anos para cá, semanalmente, me foi tocando e por tal tem lugar cativo quando no meu coração se canta o hino dos afectos.

quarta-feira, 1 de março de 2006

(9) OS OUTROS

fotocantodocarlos



Se me fosse permitido separar a humanidade em duas partes, os loucos e os outros, e, por modéstia, me colocasse no grupo dos outros, restar-me-ia a angustia de não saber o que eles sabem que eu não sei.

(8) FOGO DA VIDA

 
Toda prenhe de candura, tímida chama, calor
Só enlevo, só ternura, a crepitar no amor
É depois a chama forte numa louca fantasia
Há desprezo pela morte, há ilusão, há magia !
Vermelhos e amarelos, de braço dado a saltar,
Tão ingénuos e tão belos, numa volúpia sem par.
E em tanto movimento, nasce o aviso da queda
Que faz ouvir o lamento, no pico da labareda
Logo, logo, a amargura, e por vezes tanta dor,
Vão sufocar a ternura e os momentos d´amor
Baixa o fogo e a herança, são brazidos em modorra
Jaz ali a falsa esperança Talvez viva ! Talvez morra
Deste breve carnaval, resta a cinza. Vitualha !
E o fumo, seu ritual, que a suave brisa espalha

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

(7) OS AMIGOS

Creio que são como algumas estrelas.
Mesmo não se vendo, estão lá.
Fico preocupado com as estrelas que, embora aparentes, já não existem.

(6) O ENCONTRO

Cruzei-me há dias com uma formiga e pedi-lhe opinião sobre os humanos.
Alguns são piores que a cigarra, foi a resposta.
Sem argumentação, e triste, agradeci e segui caminho.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

(5) O SONHO

Vão longe esses Natais de sonhos realizados.
De dia, e por liberalidade dos Sapadores Bombeiros, um embrulho de cores brilhantes, ciosa e cuidadosamente sobraçado e, à noite, a magia duma repleta chaminé dum familiar abastado, onde o meu sapato colheria outro modesto presente.
Sempre simples e modestos mas eram o prémio do sonho, sonhado e afinal realizado entre as diversas fantasias do faz de conta.
Ao relembrar, tentei recrear, procurei o fato, o gorro, as botas, antecipadamente deixara crescer a barba, branca e natural como convinha, e tentei... tentei sem êxito alcançar as renas.
Outro sonho, como tantos outros que não vou realizar
.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

(4) SOU...


SE ME AMAM... SOU ALGUÉM
SE M´ ESQUECEM... SOU NINGUÉM

domingo, 19 de fevereiro de 2006

(3) OS ESPELHOS

Sem alma e frios, fiéis e constantes, se não côncavos ou convexos. singularmente diferentes dos humanos.
Estes, por vezes, quando nos cruzam, e num arremedo benévolo de iludir o óbvio, pensam (estás mesmo em baixo) e traduzem (que óptimo, o que andas a tomar ?).
Os espelhos não !... não nos iludem as expectativas, directos e concisos, são bons companheiros e, ocasionalmente, arrastam-me ao monologo.
Ultimamente matuto num insólito senão.
Quando os fito, e pese embora sinta em mim o menino que porventura fui, não o descortino na imagem devolvida.
Será que não cheguei a ser menino ?

terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

(2) E O AMOR ?

Alguém que me ama, na sua límpida e cândida ternura, perguntou se não me sentia triste por viver só.
Respondi que não estava só porque a guardava no meu coração
!

sábado, 28 de janeiro de 2006

(1) VERDADEIRA SOLIDÃO

fotocantodocarlos
Li que Chico Buarque, disse em entrevista:
"A verdadeira solidão é quando nos perdemos de nós próprios e em vão procuramos a nossa alma."
E acrescenta que
"Solidão não é falta de gente para conversar, namorar passear ou fazer sexo...
isso é CARÊNCIA.
Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar...
isso é SAUDADE.
Solidão não é o retiro voluntário a que nos impomos às vezes para realinhar os nossos pensamentos...
isso é EQUILÍBRIO.
Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impõe convulsivamente...
isso é um PRINCIPIO DA NATUREZA.
Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado...
isso é CIRCUNSTANCIA."

E poderíamos talvez acrescentar tantas outras solidões que afinal tem outro nome e sentido !
Mas a verdadeira... (!?)
Essa parece-me a queda num poço sem fundo !